Há dias, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Pimenta Machado, apontava - com precisa lucidez - que foram cometidos "muitos erros no passado" ao fechar e comprimir rios e ribeiras, que engordam na fúria da precipitação, mostrando que não se rendem à sentença de morte que lhe decretaram e que o caixão está longe de ser feito à medida. Esta rebeldia das águas, potenciada pelas alterações climáticas, exige um ordenamento cauteloso, abdicando de territórios potencialmente urbanizáveis e, como tal, potencialmente rentáveis para os cofres camarários, para dar o espaço devido à Natureza. Tenho dúvidas de que essa cautela esteja vertida na maioria dos planos diretores municipais revistos perante as notícias que nos dão conta de uma panóplia de propostas pelo país onde a mancha de construção alastra para terrenos rurais com o consequente aumento da impermeabilização dos solos. O pecado do passado ensombra o futuro. E de sombras cobre-se, também, o projeto do TGV. Não é irrelevante a discussão sobre a necessidade de uma segunda estação em Gaia, a curta distância da de Campanhã, destino de todos os comboios urbanos e do metro. Ainda mais se o dono da obra anuir à proposta - que o ministro Miguel Pinto Luz já considerou legítima - de mudar a paragem de Santo Ovídio (no coração de Gaia, onde desaguam autocarros, vias rodoviárias e metro) para uma área agrícola do Guardal, em Laborim de Baixo, onde só os carros chegam, fraquejando na vocação intermodal que se exige a uma paragem de primeira linha da alta velocidade. Acresce que a solução do consórcio é pecadora: a nova estação será implantada por cima de uma linha de água, na "cabeceira da ribeira de Valverde". Mas nada temam, porque o caixão será feito à medida das previsões de inundações a cem anos. Falta saber o que dirá a APA.
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