Christiane Vera Felscherinow começou a fumar haxixe com 13 anos. Adolescente numa família disfuncional, em Berlim, meados da década de 70, com fácil acesso a drogas, rapidamente escalou para a heroína e daí até à descida aos infernos da prostituição e da delinquência foi um pequeno passo. Quando foi presa, contou a sua história a dois jornalistas, que a deram a conhecer como Christiane F., em "Os filhos da droga", um relato impressivo na primeira pessoa que marcou uma geração, inspirou um filme (com David Bowie, que deu um concerto onde ela debutou na heroína) e uma recente série da HBO.
Apesar do sucesso global, Christiane nunca conseguiu equilibrar-se e no fio da navalha debateu-se toda a vida com as dependências, como contou num segundo livro ("Christiane F. - A vida apesar de tudo"). A história de subserviência e rebelião desta filha com a droga, embora com contornos inéditos em termos de popularidade, é paradigmática de uma de muitas gerações perdidas para a heroína. E continua anacronicamente atual. Porque embora o fenómeno da toxicodependência tenha mudado - há novos produtos, as rotas e os perfis de consumo diversificaram-se -, os problemas continuam os mesmos.
O Porto voltou a despertar para uma realidade que muitos julgavam ultrapassada. O narcobairro da Pasteleira Nova, o maior supermercado de droga da cidade, abastece, através de uma organizada cadeia de importação e distribuição, os toxicodependentes da região e redes de tráfico de todo o país - um negócio que movimenta cem mil euros por dia. Cem mil euros de roubos, violência e medo.
As ações policiais, ainda que regulares, são incapazes de travar um flagelo que vai muito para lá das questões de insegurança que legitimamente preocupam as populações. A atual situação resulta de décadas de indolência em que basicamente se varreu a droga de um bairro para outro sem uma estratégia concertada a nível da intervenção policial e de políticas de urbanismo, ação social e de saúde. A verdade é que a droga, e os toxicodependentes, são um problema que todos preferem ignorar até estar à porta de sua casa.
A abundância de substâncias disponíveis, a atual crise económica e a falta de respostas sociais formam uma tempestade perfeita, capitalizada por uma indústria cada vez mais sofisticada e tentacular. De nada adianta atirar com medidas simplistas e populistas, como criminalizar o consumo na via pública.
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