Vejo sempre com surpresa as primeiras audições desse programa de grande participação popular e ainda maior audiência chamado Ídolos. Este é um programa muito bem engendrado por quem teve a ideia dele e vive de várias emoções.
Sendo as audiências feitas a partir do zero, ou seja, sem nenhuma pré-selecção, aparecem perante as câmaras todos os que quiserem aparecer. E entre muita banalidade, a que a produção, sabiamente, poupa os espectadores, aparecem os que interessam para fazer avivar no público os sentimentos mais básicos que fazem o sucesso dos programas de televisão.
Sentimos desprezo pelos idiotas úteis, viciados, provavelmente, em Morangos com açúcar e revistas cor-de-rosa, cujo objectivo máximo da vida é integrarem a classe de "famosos" que eles próprios ajudam a criar. A estes, pouco lhes importa se sabem ou não cantar - os que integraram a classe dos famosos entre as mais tradicionais estratificações sociológicas têm a sorte como elemento mais valioso de progressão social.
Sentimos também alguma felicidade, por todos os que de facto sabem ao que vão. E simpatia, compaixão até, por uns certos tontos, esforçados mas sem jeito nenhum para aquilo, que o júri se encarrega de humilhar - por vezes, muitas vezes, irresponsavelmente.
E é aqui, neste ponto, que quero tocar. Essa humilhação pode ter motivos profissionais - ao júri foi pedido que cutuque os nossos sentimentos e é isso que faz, cruzando muitas vezes a linha do respeito pelo próximo. Ou pode ter motivos pessoais - eles já estão tão fartos de parvoíces que paga o justo pelo pegador. O formato, aliás, é copiado do americano e inglês, no qual o muito famoso Simon Cowell destilava o seu veneno como Manuel Moura dos Santos o tenta fazer. Mas há um certo desperdício na atitude do júri, que, perdoem-me o idealismo, podia, aqui, representar um papel mais importante. E que se daria a ele próprio maior importância.
Raramente vi em Portugal maior mobilização popular do que neste programa - as filas enormes à volta dos locais de audição sempre foram, e continuam a ser, impressionantes. Cada uma daquelas formiguinhas está bem ciente de que ali pode estar o seu futuro e isso sobrevém na energia que aquela multidão liberta. A esperança… sempre o último reduto da humanidade.
Por isso digo que, dadas as circunstâncias extraordinárias desta mobilização, o júri do Ídolos podia puxar para si um papel que não se resumisse, também ele, ao de estrela de televisão. Podia dar algo mais profundo à multidão - e ao país, através das enormes audiências. Esta ideia utópica não me surgiu do nada. Veio-me à cabeça numa das intervenções que vi Manuel Moura dos Santos fazer. Entrou um miúdo que se incluía na categoria do tímido esforçado, mas que fez uma porcaria de uma audição. Atrapalhou-se todo e desculpou-se que não estava no seu melhor. Manuel Moura dos Santos passou-se e perguntou-lhe quando estaria no seu melhor, porque aquele era o momento em que ele devia estar no seu melhor. Era o momento da curta vida dele! E culpou-o por isso, e gritou-lhe e fez o que devia ser feito. E foi um líder, um manager, um treinador. E chamou os bois pelos nomes, com um grau de exigência que vemos pouco em Portugal - não se limitou a gozar com quem tinha à sua frente, tocou-lhe na ferida, e, ao fazê-lo, na de muitos dos que cá fora esperavam ou já tinham sido eliminados, e nos que, em casa, tantas vezes já tinham tomado atitudes semelhantes.
Portugal não é os Estados Unidos. E assim como quem sair do Ídolos, mesmo vencedor, sabe que nunca será um Jennifer Hudson ou uma Susan Boyle, também o seu júri podia actuar menos como se fizesse parte de um star-system… que não existe.
