O fundador e principal acionista da Inditex (grupo que detém oito marcas de sucesso, incluindo a Zara e a Massimo Dutti) vai receber, este ano, 1718 milhões de euros em dividendos da empresa. Amancio Ortega - o mais rico de Espanha e membro cativo do exclusivo clube dos mais afortunados do planeta - vê assim aumentar significativamente os proveitos do gigante têxtil galego que fundou em 1985. Por cá, soubemos esta semana que o grupo Jerónimo Martins - que detém os supermercados Pingo Doce e é dos maiores retalhistas a nível mundial - teve lucros de 419 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano (mais 29,3% em relação ao período homólogo).
É muito fácil cair em clivagens demagógicas quando se trata de dinheiro. Não há nada de imoral ou ilegítimo em ter ou ganhar muito dinheiro, de forma honesta. O problema não é os ricos estarem mais ricos, é os pobres estarem mais miseráveis e a dita classe média agoniar com o garrote dos impostos e a escalada dos preços e dos juros. E o fosso entre o topo e a base da pirâmide social ser cada vez mais fundo.
Taxar os lucros extraordinários é, sem dúvida, uma via legítima, mas impõe-se também uma revisão das práticas de responsabilidade social das grandes empresas e dos milionários. Há sinais ténues de esperança, como a criação do grupo denominado "Milionários Patriotas", constituído por cem dos mais ricos do Mundo que querem pagar mais impostos. Porém, os números demonstram que a esmagadora maioria dos mais abastados pouco ou nada faz para melhorar as condições de vida dos que engordam os seus negócios. A "Forbes" revelava, no mês passado, que apenas nove da lista dos 400 mais endinheirados dos Estados Unidos doaram pelo menos um quinto das suas fortunas. A maioria ficou-se por menos de 5%.
Não é imoral o senhor Ortega ter mais milhões na conta bancária. O que é indigno é haver cada vez mais pessoas que não conseguem comprar uma camisola da Zara (ou de qualquer outra marca fast fashion).
*Editora-executiva-adjunta

