A propósito do manifesto "Não-socialistas por Seguro", que subscrevi, eu julgava, na minha inocência, que um apoio era um apoio era um apoio. Mas, nestes últimos dias, encontrei no dicionário das opiniões inteligentes sentidos que iluminaram o meu conhecimento vocabular limitado. Saio disto enriquecido em sinónimos - o que, para um escritor, é uma grande mais-valia.
De acordo com uns, o apoio verdadeiro, o apoio puro, é cinquenta cinquenta. Só total se prestado na primeira e na segunda voltas. De acordo com outros, o apoio legítimo tem de ser o elogio rasgado ao candidato, e nunca a escolha ponderada entre as qualidades de um e os defeitos do outro. Para esses, se não for sinónimo de panegírico, mais parece uma invectiva.
Outros, os que ficam em cima do muro, dizem que apoio é sinónimo de ameaça: preferem não se comprometer perante uma escolha simples, mas detestam que outros, ao manifestarem-se, lhes desmascarem a fraqueza. Por isso, sem tratarem a natureza das coisas, classificam a bondade do apoio apenas quanto à eficácia: no melhor dos casos, apoiar Seguro não pertencendo ao eleitorado típico do Partido Socialista é inútil, por não surtir qualquer efeito; no pior, é na verdade contraprodutivo, um presente envenenado, por, em potência, afugentar os eleitores naturais do candidato. Em simultâneo, manhosos, também dizem que apoio é apenas sinónimo de sinalização de virtude. O melhor, insistem, é fazer-se como eles: nada de nada. Uma percentagem destes, suspeito, encaminham o voto para Ventura, mas sempre é mais vantajoso mostrarem-se em cima do muro.
Também tenho encontrado quem concorde caridosamente com o apoio, mas se apoquente porque não foi escrito à sua imagem e semelhança. Tomam-no pelo que gostariam que ele fosse e não pelo que ele é. Devia ser antes sinónimo de absoluto alinhamento - e também absoluta comunhão. Higienicamente, nunca teriam usado o termo "não-socialista", por representar uma suposta cedência à linguagem de Ventura - quando bastaria lerem o manifesto com espírito aberto para concluírem que cedência a Ventura é justamente o que ele não faz.
Por último, há a turba. Os correligionários de Ventura actuam com uma brutalidade impossível de desmontar, por ser uma questão de fé. Convertidos ao messias, tornaram-se zelotas. António José Seguro é o grande herdeiro de Sócrates (pois se até há fotografias juntos), da mama, do tacho, a mais perfeita personificação do sistema, já não digo do próprio "socialismo", termo com raízes históricas que os próprios ignoram porque o aprenderam como simples calão. Apoiar Seguro, para estes, é sinónimo de traição à pátria.
Quanto a mim, vou apontando os sinónimos numa longa lista de ficções e fantasias. Embora, como escritor, me enriqueça o vocabulário, como pessoa, é bem capaz de me empobrecer o ânimo.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia

