Passos Coelho voltou à cena com a gravidade e solenidade de quem acredita que a História lhe ficou em dívida. Tábuas reformistas em punho, consciência vigilante, como se a pátria estivesse suspensa à espera da sua pedagogia reformista, disposto a ensinar ao país - e sobretudo a Luís Montenegro - a arte esquecida de "governar para deixar marca". A lição é antiga: quando o presente hesita, o passado oferece-se como destino.
Passos fala de reformas travadas, de coragem adiada, de governos que devem ir a votos se o Parlamento lhes negar o ímpeto. A ideia tem qualquer coisa de plebiscitário: se os deputados não acompanham, convoque-se o povo; se o presente hesita, acelere-se o calendário. A democracia, para Passos, parece uma prova de obstáculos onde o eleitorado serve de árbitro sempre que o Parlamento não confirma a inspiração do jogador. Se não passam as reformas, convoque-se o povo; se o povo não confirma, convoque-se a História.
Mas o país lembra-se. Lembra-se da austeridade erigida em catecismo, do tempo da troika em que governar era cumprir, não escolher; do primeiro-ministro que, com frieza cirúrgica, pediu mais sacrifícios quando já quase nada restava para cortar. Havia então um sonho duro, quase calvinista: reformar pela necessidade, modernizar pela escassez. Hoje, a retórica mantém o aço, mas perdeu a promessa. Onde antes havia horizonte, agora há sombra. No fundo, o ranger de uma porta antiga: Passos a marcar território, a lembrar a Luís Montenegro que a liderança é empréstimo, nunca herança.
Eis o antigo chefe de Governo como oposição ao seu próprio partido para, mais tarde, poder ser alternativa ao país de braço dado com um bando de extremistas que lhe viabilizem uma maioria absoluta. Mais dificilmente, esvaziando-os. É uma coreografia arriscada: a de quem afia a espada na sombra esperando luz. Há em tudo isto um traço providencialista - quase cavaquista, dir-se-ia - mas sem o silêncio estratégico de Cavaco Silva. Na célebre rodagem do Citroën no Congresso do PSD na Figueira da Foz, Cavaco rodou o volante e o partido rodou com ele; havia gasolina social-democrata suficiente para uma década. Passos, pelo contrário, parece regressar a pé, carregando a própria estátua invisível. Não conduz o partido - observa-o, corrige-o, adverte-o.
Com brutalidade, Passos Coelho não resiste à tentação de acreditar que, depois de Montenegro, o futuro ainda lhe deve um último acto. Acredita que a maioria de Direita é ainda matéria moldável nas suas mãos, artífice de uma revolução inacabada. Mas o tempo político é um animal caprichoso: raramente devolve intacto aquilo que um dia ofereceu.

