Corria o minuto 48 e um jogador sintetizou a genialidade em vários golpes para fazer o seu décimo golo na temporada, o primeiro dos dois que haveria de marcar no jogo frente ao AVS, contribuindo para um percurso imaculado de derrotas na primeira volta da Liga. Mas não foi um golo qualquer. Construído com os pés e fabricado com a cabeça, o primeiro golo do F. C. Porto vem com a autoria de um suposto "trapalhão", epíteto que muitos gostam de colar a Samu, designação que o próprio acolheu para ironizar com leveza após ser escolhido como o homem do jogo: "Tive a sorte de fazer essa jogada, mesmo sendo trapalhão... Estou muito feliz". Para um avançado com sangue na guelra, as declarações servem-se frias.
O espanhol sabe bem que aquela jogada-finalização, nos pés de qualquer jogador, seria um sinal de predestinação no caminho para os píncaros, primeiras páginas que rasgariam cláusulas de rescisão e fariam juras de transferência próxima. Como se trata de Samu, muitos não acreditam pese embora o seu crescimento com Farioli ser inegável. Ainda que a veia goleadora já seja fama que vem de longe, este é um grande golo e brilhante cartão de visita.
Há uma notável inteligência, também emocional, na forma como este F. C. Porto de Farioli tem conseguido elevar a consistência a outro patamar. Com apenas um empate na primeira volta, o F. C. Porto só não é previsível campeão, porque o Sporting está a fazer, também ele, um extraordinário campeonato. Se as equipas assim prosseguirem, é provável que assistamos a um clássico definidor no Dragão, aquando da recepção a "leões". Trabalho, complementaridade e foco. É com esse travo e centelha que o F. C. Porto vence o último da Liga, quase como se pensasse primeiro.

