Há erros que se repetem década após década. Nos anos 50 e 60, sob a batuta ditatorial do Estado Novo, o Porto recebeu o plano de melhoramentos com a construção de milhares de casas em bairros edificados fora do coração da Invicta, atirando famílias que viviam em alojamentos precários para a periferia e roubando-lhes o direito à cidade. Nos anos 90, o Programa Especial de Realojamento, também movido pela ambição virtuosa de dar melhores condições de habitabilidade a quem não as tinha, ergueu mais de 30 mil habitações, sobretudo nas áreas metropolitanas, onde havia terrenos disponíveis a custos acessíveis, ou seja, mais uma vez longe do bulício citadino. O meritório objetivo de tirar centenas de famílias de barracas e de casas degradadas, em particular no Porto e em Lisboa, não iliba o pecado capital de confundir um teto com um lar. A mudança despojou-os das raízes, do sentimento de pertença, dos espaços urbanos que conheciam de olhos fechados, onde o reconhecimento da vizinhança é mais do que simpatia. É um modo de sobrevivência, uma rede de suporte que os ampara no dia a dia. Vem a propósito a angústia de uma centena de moradores do Pátio da Quintinha que receia perder o seu lugar no Beato, na capital lisboeta. Os parcos rendimentos limitam um caminho alternativo, mas não é só de um teto que falam. Falam sim desse sentimento de pertença, de família entre uma comunidade sem laços de sangue que vai além de ter paredes bonitas e divisões espaçosas. Pede-se à Câmara de Lisboa que faça mais do que ficar à espera de um eventual exercício de direito de preferência. Pede-se ao Porto - onde existem mais de 900 ilhas, de acordo com um levantamento que tem uma década e que valeria a pena atualizar - que replique projetos como o das ilhas da Lomba pela cidade. A dignidade habitacional deve proteger as vidas que ainda alimentam a autenticidade e a pluralidade nas grandes metrópoles.
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