Poder local, tecnologia e futuro: soluções que tocam a vida real
A maioria dos problemas que afetam a vida das pessoas não começa em Lisboa. Começa na rua onde vivem, na escola dos filhos, no centro de saúde ou no tempo perdido para tratar de um simples assunto administrativo. Por isso, o poder local deixou de ser apenas um nível de execução e passou a ser um espaço central de resposta aos desafios do nosso tempo.
Os concelhos são hoje verdadeiras tapeçarias de recursos humanos, sociais, económicos e institucionais. Um território moderno constrói-se a partir dessa diversidade, articulada com um fator essencial: a proximidade e o conhecimento real das dificuldades da comunidade. A tecnologia deve servir esse propósito - não como moda nem como substituto do contacto humano, mas como alavanca para melhorar a relação entre a administração pública e os cidadãos.
Vejo a inteligência artificial não como um fim, mas como um meio. Ao automatizar tarefas burocráticas e repetitivas, libertamos tempo e energia dos funcionários públicos para aquilo que nenhuma máquina consegue fazer: ouvir, compreender, decidir com sensibilidade e resolver problemas complexos. Uma tecnologia bem aplicada permite antecipar necessidades, reduzir tempos de resposta e tornar os serviços mais simples, mais justos e mais humanos. É isto que entendo por tecnologia com propósito: usar dados para encurtar a distância entre a câmara e as pessoas.
Este caminho enfrenta, porém, um desafio estrutural: a dificuldade de atrair e reter talento qualificado na administração pública. As limitações remuneratórias dificultam a concorrência com o setor privado nas áreas tecnológicas, a par do envelhecimento natural dos quadros municipais. É essencial valorizar os funcionários mais experientes, detentores do conhecimento institucional, mas também renovar equipas e integrar novas competências.
Relatórios recentes da OCDE e da Comissão Europeia alertam para este risco. Sem reforço de capacidades técnicas, o setor público perde inovação e autonomia estratégica. Este desafio exige atenção do Governo, criando maior autonomia para as autarquias na gestão dos recursos humanos, nomeadamente nos incentivos, progressão e valorização profissional. Só com modelos mais flexíveis será possível atrair competências, rejuvenescer equipas e preparar a administração local para o futuro.
As autarquias precisam de quadros próprios nas áreas digital, da análise de dados, da inovação e da segurança da informação. Reforçar capacidade interna é garantir autonomia e melhor decisão ao serviço do território. Hoje, governar exige visão, coragem e um propósito claro: melhorar, de forma concreta, a vida das pessoas. O futuro constrói-se onde a política toca o quotidiano. E esse lugar continua a ser, antes de tudo, o poder local.

