A leitura do livro que Gaspar Martins Pereira dedicou a Antónia Adelaide Ferreira (1811-1896) é boa forma de verificar que ela não foi uma pessoa qualquer. Mas recomenda-se igualmente a visita aos armazéns da Porto Ferreira.
Notável empreendedora e inovadora, soube usar como oportunidade a grave crise do filoxera que atacou as vinhas do Alto Douro, granjeando o reconhecimento dos que com ela se relacionaram, mais poderosos (incluindo o famoso Barão de Forrester), ou mais humildes.
A Ferreirinha, como também era conhecida, garantiu a gestão da vinha nas quintas que foi comprando, até atingir as dezenas, e a produção do vinho fino - tal como azeite, amêndoas e cereais - que estagiava em Vila Nova de Gaia. O seu nome está hoje associado a um prémio que tem "como propósito reconhecer mulheres que fizeram a diferença no desenvolvimento económico, social e cultural de Portugal". Tal como ela o fez, em contexto bem mais adverso.
Dada a sua ligação ao Douro, o rio pelo qual navegava o vinho nos rabelos; a Gaia, lugar dos armazéns, e ao Porto, onde morava, no desaparecido Palacete da Trindade, reúne todas as condições para dar o seu nome a uma ponte, ainda que tenha nascido e falecido em Peso da Régua. Havia Manoel de Oliveira, Agustina, Edgar Cardoso e alguns mais.
Por mim, preferia o nome do rei-soldado D. Pedro IV que deu o seu coração ao Porto e cujas tropas combateram na Serra do Pilar, mas pode ficar para a nova ponte de caminho de ferro. Face às possibilidades, o meu voto vai para a Ferreirinha, boa negociante e alma bondosa - empresária com responsabilidade social, dir-se-ia hoje - que foi essencial para afirmar o vinho fino no mundo, produto do Alto Douro que projetou (e projeta) o nome do Porto e atrai pessoas e negócios a Gaia.
* Geógrafo e professor da Universidade do Porto

