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O atraso endémico do nosso país tem razões estruturais que importa apurar com rigor e corrigir de forma determinada e persistente. Uma delas decorrerá certamente das características dos portugueses, como indivíduos, em particular o baixo grau de educação e de competências cívicas, sociais e profissionais que ainda temos. Outra resulta da nossa cultura organizacional e das formas concretas como estruturamos a nossa sociedade e o Estado para a realização das funções fundamentais para a nossa vivência como nação.
Sendo certo que alterações profundas destas características não se fazem nem rapidamente nem por decreto, acontecendo normalmente quando provocadas pela ocorrência de fenómenos disruptivos como conflitos armados, colapsos económicos, cataclismos físicos ou pandemias, também é verdade que, no mundo de transformação acelerada em que vivemos, há meios e métodos para provocar mudanças significativas estruturais e organizacionais, que viabilizam melhorias radicais na forma como vivemos e construímos o futuro.
Em particular, em Portugal, é urgente, imperativo, adotarmos outras formas de capacitar o Estado no cumprimento da sua missão através da Administração Pública Central. O paradigma atual da AP baseia-se na profunda desconfiança dos portugueses. Daí a adoção de um centralismo controlador extremo, de regras e mais regras e de auditorias burocráticas, centradas nos procedimentos e não na obtenção dos resultados.
Se, por exemplo, na presente crise aguda do SNS se procurasse dotá-lo, em termos de capacidade de planeamento e de execução, do mesmo modelo organizacional que os sistemas privados de saúde dispõem, nomeadamente dando aos seus gestores o mesmo grau de autonomia, meios e capacidade de decisão que os seus congéneres privados, estou certo que iríamos ver uma renovada dinâmica neste sistema que tão fundamental é para a nossa sociedade democrática.
Pergunto-me: Porque não se discute a "reforma do SNS" nestes termos? Porque insistir em mudançazinhas que mantêm o nosso Portugal asfixiado?
*Professor catedrático distinto jubilado do IST e fundador e investigador emérito do INESC
