Portugal é um país estranho. Não é para velhos - ei-los solitários, sempre vestidos de cores escuras, escondidos nos seus apartamentos frios e com muitas escadas, com reformas tão miseráveis que não os deixam aproveitar os anos a mais de esperança de vida que a modernidade lhes proporciona. Nem é para novos - ei-los alienados, queimando pestanas, estudando em cursos de cacaracá, que já sabem não os levarem a lado nenhum, desempregados porque são o elo mais fraco de uma lei laboral que não premeia o mérito, nem tão-pouco o talento ou a qualidade, precários sem daí aproveitar a liberdade, ansiosos por se encaixarem, sem sonhos, nem pensamentos de futuro.
E também não é para todos os outros, os excelentes e os que se encaixam nas médias e medianas de todas as estatísticas. Todos, todos mesmo, têm a sensação que excedem o seu país, que são melhores do que ele. Que há uma estranha História de 800 anos, em que uma genialidade extraordinária descambou num desmando generalizado. E que esse nevoeiro formado não há meio de nos largar.
Portugal é um país estranho, porque só pode ser visto como muito estranho um país que se encontra à beira do precipício e os seus políticos agem como se nada se passasse. Políticos que, como todos os políticos, e como se vivessem tempos de normalidade, se deleitam com guerras de palavras e guerrilhas de ideias, e até salivam, quando falam para as televisões sobre a crise, incapazes de esconder o seu contentamento com estas politiquices que sempre foram a espinha dorsal da política à portuguesa. Como os criminosos quando ainda não foram descobertos pela Polícia e dão entrevistas aos jornalistas como meras testemunhas.
Não podemos deixar de pensar que noutras paragens, mais civilizadas, não seria assim. Que se era para haver eleições e era o Governo que as queria, então que se demitisse e as convocasse. Que se era a Oposição que as desejava, então que fizesse tudo para as obter - e não votasse numa semana uma moção num sentido, e na semana seguinte mostrasse pensar exactamente o contrário. Que se era o presidente da República que as achava úteis, então esse, ainda mais que todos os outros, tinha tudo na mão para as convocar e as convocasse.
E o que é mais extraordinário, é que tudo isto acontece uma escassa semana depois de uma grande manifestação, que supostamente seria de uma geração, mas que cedo se percebeu ser de toda uma massa de cidadãos que estão fartos do status quo dos políticos e da política. E os políticos como respondem? Ouvidos moucos, foram mais políticos, e fizeram mais política.... Por menos, caíram impérios. Porque privilegiaram as aparências, os sinais, em vez das substâncias e dos factos. Foi assim, pela forma e não pelo conteúdo que acabámos atascados nesta crise política.
Mas aí estamos de novo em campanha eleitoral. Nem imagino como vão ser as mensagens dos cartazes: uma carnificina. Porque esperança não há nenhuma. E partido que se queira apresentar com honestidade não pode se não prometer cortes, cortes e mais cortes. Ou mudanças, como as da lei do trabalho, que são tão mais impopulares quanto vão ter de operar em Portugal uma mudança tectónica que faça as nossas contas públicas acertarem passo com a Europa. Estão a imaginar melhor cenário para eleições do que com o papão do FMI atrás?
Eu já não pedia aos políticos portugueses que tivessem a fibra dos autênticos kamikazes japoneses que estão a tentar arrefecer os reactores nucleares de Fukushima, com a certeza que, se não morrerem, terão doenças graves e dolorosas. Eu pedia o civismo de qualquer cidadão japonês que, depois da tragédia, sabe que não pode roubar a loja da esquina porque está a fazê-lo contra o bem de todos. Eu só pedia um mínimo de civismo.
Catarina.carvalho@controlinveste.pt
