A bem da minha saúde ainda pensei escrever uma composição sobre brincar na neve pela primeira vez mas, a meio da viagem à Serra da Estrela, parei para comer e, ao meu lado, numa mesa de almoço de colegas de trabalho, alguns tipos reagiam às notícias que iam passando na televisão. Quando passou a notícia sobre a ex-assessora da Iniciativa Liberal, ouve-se o comentário por parte do colega mais expansivo: "Com uma carinha daquelas, deve ser fresca, deve". Olhei instintivamente para as caras das mulheres que estavam na mesma mesa. Silêncio e cabeça baixa a mexer os cafés que entretanto chegaram. Segue-se uma notícia qualquer a envolver a ministra da administração interna. O mesmo tipo: "Esta velha já devia estar num lar, olha 'pra isto". Para percebermos melhor: a Maria Lúcia Amaral só tem mais 4 anos que o candidato Cotrim Figueiredo.
E não, isto não é sobre o candidato presidencial da Iniciativa Liberal. Quero deixar bem clara a minha carta de intenções: eu não sei, de facto, se Cotrim Figueiredo é um assediador mas sei o enxovalhamento que vi, li e ouvi por aí assim que tornaram pública a partilha da ex-trabalhadora da IL, Inês Bichão. Portanto, até vou pegar no seu slogan de campanha para dizer exactamente ao que aqui me traz: Imagina Portugal. Imagina um país em que por se ter nascido mulher, não signifique estar eternamente em desvantagem. Imagina um Portugal em que as mulheres vivem realmente como se fossem cidadãs de primeira. Imagina um Portugal que não odeie mulheres tão descaradamente. E vou escrever sem estar a sobreanalisar as minhas palavras com a pressão de ser certeira e ao mesmo tempo muito educada. Porque é que pensamos tanto em ser cirúrgicas e finas quando do outro lado, o que nos dão é primarismo do pior? Que se lixe. Porque se até um doutor como o José Miguel Júdice não tem vergonha de ir à televisão dizer coisas como "Um tipo inteligente e sofisticado tentava seduzir uma senhora a dizer aquelas coisas horrorosas?", eu também posso dizer as primeiras coisas que me vêm à cabeça. Felizmente, nos últimos dias, já tivemos mulheres no espaço público com paciência suficiente a explicar o que é a revitimização, a descredibilização da mulher, a presunção da inocência versus a culpabilidade e perversidade da mulher que denuncia, que um assediador, como qualquer outro criminoso, não é um monstro com toda a gente o tempo todo, que os crimes sexuais são sempre os mais difíceis de provar e é um problema que nos deveria preocupar a todos, que o timing das denúncias muitas vezes coincidem, compreensivelmente, com o destaque do perpetrador ou que, por não ter acontecido com todas as mulheres, não significa que não tenha acontecido. Aqui entre nós: a figura deprimente a que algumas mulheres se disponibilizaram imediatamente a fazer foi realmente um fenómeno que nunca pensei assistir. Mulheres, algumas que se autopromoveram à grande graças a ser-se "feminista" e que se apressaram a dizer "se não aconteceu comigo, é porque nunca aconteceu". Exato. Pois se elas são bem boas e não aconteceu, como é que é possível? Mas também vos digo, se é para representar as mulheres sem razão de queixa, só 30 também pode ser um bocado suspeito. Por isso, isto hoje é para vocês que passaram a semana com a misoginia toda à mostra.
São semanas como esta que nos abrem os olhos para a realidade nua e crua. Nascer mulher ainda é nascer com uma condição como se fosse uma doença. Como se nascer-se mulher fosse um defeito de fabrico. Nascer mulher é viver para a expectativa de servir, de não falar alto e para só se sentir completa se for considerada extraordinária. Extraordinária. Como as pessoas sem braços que pintam obras-primas com os dedos dos pés. Tem de ser permanentemente extraordinária ou então é melhor nem aparecer. E por isso, muitas vezes, ficamos estáticas, esvaziadas de confiança, com receio de ser apontadas como medíocres. Nós temos o direito a também sermos medíocres. Estamos fartas do medo. O medo que nos cala, o que nos faz escolher o lugar no autocarro para reduzir as chances de ser apalpada. O medo que, em relações de abuso, nos faz não sair de casa porque abandonar significa demasiadas vezes a morte. Fomos assim domesticadas com um cão vadio que tem de mostrar gratidão a quem não lhe bate. E isto é tudo um ecossistema tóxico para todos, na verdade, mas para a mulher em particular e fazemos todas parte disto. Especialmente as que nos criaram. Vítimas elas próprias desta permanente humilhação e que repetem, naqueles que mais amam, estes padrões radioativos. Um sistema que nos diz que nos tornamos mulheres quando o corpo sangra pela primeira vez e que nos fazem sentir vergonha por menstruar ao ponto de mostrarem água azul em anúncios de pensos e tampões. Um sistema que descura a nossa saúde porque a sintomatologia estudada foi quase sempre a masculina. Uma cultura que nos encaminha para a depilação integral porque nos convenceram que é mais higiénico quando, na verdade, o pelo nos protege de futuras infeções e só passou a ser moda quando a infantilização feminina começou a ser uma preferência global da pornografia. Um sistema que nos isola e que estimula a sermos controleiras umas das outras ou a olhar com desconfiança para a mulher do lado porque nos faz sentir que só há lugar para uma.
Um sistema que espera de tudo de nós. Já estamos exaustas e ainda são 8 da manhã. O movimento #metoo só não rebenta em Portugal porque semanas como esta existem e os ataques são tão baixos e avassaladores que dissuadem qualquer uma que ouse falar por si. Porque, a verdade é que neste momento estão muitos homens a olhar por cima do ombro, passando em revista os seus próprios comportamentos, e por isso reafirmar a confiança neste sistema e cultura que os protege e nos oprime, é prioritário. E mulher que se insurge contra isto é rapidamente atacada com os clássicos: "put*", "mal fodid*", "gorda, faz-me uma sandes" para que da próxima vez aprenda a não se expor.
Eu vejo daqui as estratégias milenares para nos manter capturadas no lar. Sem tempo para questionar, para aprender, para se pensar sobre o que é ou quer ser. Vocês, homens, brincam até tarde e não têm de usar as saias que nos faz brincar menos porque na primeira pedrinha da macaca nos gritam "não podes estar de pernas abertas". Começamos cedo a aprender a arrumar a casa e a dedicarmo-nos a ser mais apelativas ao olhar. Higiene para vocês é usar um 4 em 1 para tudo. Nós somos persuadidas pelas marcas a usar 4, e isto só antes de ir dormir. Era bom só ter de deixar crescer a barba para tapar a papada ou estar socialmente convencionado que mostrar os cabelos brancos é super atrativo e não um "trambolho desleixado". Deve ser giro viajar de mochila às costas para todos os países do mundo sem ter medo de ser assassinada ao virar da esquina. Também deve ser giro sair à noite, beber à vontade e saber que o pior que pode acontecer é ser assaltado e não violados num vão de escada. Só têm de fazer os mínimos para serem considerados heróis "A Sandra tem muita sorte. Olha que lá em casa é o Jorge que põe a roupa na máquina". Outra: assim que surge uma nova tecnologia, como as ferramentas de inteligência artificial, e a primeira coisa que fazem é pedir-lhe para nos mostrar despidas. Aceitam-nos mais facilmente quando nos diminuimos, para não se sentirem intimidados. E na discussão da semana, muitos também disseram "Eu não discrimino entre homens e mulheres" e depois vemos as pessoas que contratam e os grupos em que se movem. Mas querem enganar quem? Pede-se para elencar 5 mulheres que admiram e uma é a mãe e a outra a esposa que trabalha e ainda trata da casa. A História obliterou-nos mas o presente também não nos favorece. Outra: "gays também não discrimino". O vosso problema não é com o homossexual. É mais especificamente com o homem que dá o rabo. Porque, para o mundo, isso é que é inferior. Não é ser gay macho. Com esses não há problema. É ser gay efeminado. Porque vocês odeiam mulheres. A professora que vos deu um raspanete à frente da turma. A coleguinha que vos deu tampa. A mãezinha que fez tudo por vocês mas que não vos colmatou o olhar de desprezo do vosso paizinho que nunca disse que "tenho orgulho em ti". Vocês odeiam mulheres. Vocês que aparecem à frente de uma câmara com o cabelo por pentear e que julgam a mulher ao lado pela gordura que tem nos braços. Vocês odeiam mulheres. Já nós, incrivelmente, não vos odiamos. Nós já não nos deixamos é controlar como antes. O que odiamos é o sistema. Odiamos a cultura: Os grupos em chats para violar a nossa dignidade como baratas de esgoto. As sentenças de penas suspensas a quem nos maltrata. Quem quer legislar sobre os nossos corpos porque o poder que ainda têm nunca chega. Acham que ser-se emocional é chorar na casa de banho do trabalho ao contrário da violência com que respondem às contrariedades. Vocês usufruem de uma impunidade, de uma graça e de segundos olhares, invejáveis. Vocês cresceram a reclamar o mundo que vos prometeram. A vossa palavra ainda vale mais que os nossos gritos. Nós crescemos a aprender que reclamar pode ser perigoso e que falar mais alto nos categoriza para sempre. Então achámos que imitar-vos seria a solução para ser aceite como igual. Não resulta. E no entanto, finge-se que sim.
Nós estudamos. A discrepância de números de mulheres e homens na academia é significativa. E é esta a guerra silenciosa que travamos. Sermos mais qualificadas. Tomarmos de assalto as instituições e tentar mudar o sistema por dentro. Não fazer apneia perante esta onda de conservadorismo mas acreditar que sabemos nadar e furar de frente. A luta ainda nem a meio vai e, quando a misoginia e a cretinice rendem votos, são precisos todos os que acreditam na verdadeira justiça e liberdade para todos. Sem exceção. O único caminho é em frente, pelo progresso. O bom que seria ser hoje eleito alguém que faça nascer o dia no meio desta eterna escuridão que vai sendo iluminada com deprimentes prémios "mulher-executiva do ano". Nós exigimos as portas escancaradas e as janelas a fazer corrente de ar.

