Esta semana, convidaram-me para jantar e, talvez pela minha obsessão por cozinha tradicional portuguesa, perguntaram-me qual o meu prato favorito, para mo prepararem. E pode soar estranho mas percebi, nesse momento, que nunca pensei seriamente nisso. Sei lá. Como quase todos os portugueses, gosto de arroz de pato. Adoro todos os pratos à volta do bacalhau. Vibro com receitas de entranhas e as partes consideradas menos nobres dos animais. Mas confrontar-me com o número um da lista foi inesperado. Eu cozinho regularmente, os meus pais são ambos cozinheiros e, ao revisitar mentalmente as suas deliciosas ementas, fez-se luz. Caramba. O meu prato preferido deixou de existir. O meu prato preferido já não se faz. Perdi o meu prato preferido quando morreu o meu avô.
Mas a sorte que é ter provado o melhor prato do Mundo! O meu avô chamava-lhe "pequeno-almoço", mas garanto-vos que não há menu de três páginas A4 que consiga descrever a simplicidade da receita e a complexidade provada em cada dentada. Estou a ser injusta com os responsáveis por escrever os menus dos restaurantes, porque só um poeta, daqueles que estudamos na escola porque já não se fazem, se conseguiria aproximar do que realmente aquilo é: uma caneca de gemada acompanhada com um papo-seco recheado com a clara de ovo frita. "Será saudável para uma criança de sete anos comer fritos, café, açúcar puro e hidratos de carbono todos os dias?", pergunta o encarregado de educação mais preocupado. Se compensarmos este tipo de nutrição com subir às árvores para ouvir ralhetes lá do fundo com premonições de que nos vamos aleijar e ainda levar uma palmada por cima, mimar tanto os coelhinhos que, quando ficarem bons para comer, "tens de sair, porque se tiveres pena, demoram mais a morrer", assaltar as videiras e comer bagos de uvas maduras com algumas formigas à mistura que lhes dá um toque de picante, fazer bolos de terra, correr com os animais até romper o fato de treino na zona dos joelhos, ir ao rio e prometer "só me vou molhar até aqui.
Não. Afinal é até aqui", até acabar toda ensopada e regressar a casa, com esperança de que, com o cair da noite, ainda possa ter a sorte de ver algum vagalume, sim. E quando estes dias são iguais, principiá-los com esta refeição é a única forma de nos lambuzarmos neles como merecem.
O cheiro do ovo a fritar naquela frigideira velha, já com o fundo tão raspado que não percebemos se era cinzenta e ficou preta, se afinal era preta e está a tornar-se cinzenta. O crepitar do óleo que me acordava todas as manhãs como declarações de amor sussurradas ao ouvido e ao nariz. Se pensam que é um prato demasiado simplório, ficam a saber que é um complicadíssimo. A lista dos ingredientes faz lembrar as receitas da mítica Maria de Lurdes mas na parte do Modesto: 1 gema de ovo de galinhas que tiveram a sorte de escapar ao galo maldito que embirrava mais comigo que a minha professora de Matemática por não saber fazer as reduções dos decilitros para mililitros; 1 carcaça do padeiro que não só vendia bons panificados, como também eletrodomésticos às prestações; açúcar amarelo e cevada Pensal comprados na Taberna do Zé Borralho, que entretanto já faleceu e parece que o filho agora é que está atrás daquilo. O Centro Comercial Colombo da aldeia. Era taberna. Era mercearia. E, para além de ter sido a primeira televisão a funcionar, foi também a cabina telefónica que levava o povo, sem telefone fixo, à falência pelo preço a que tinha os "impulsos". Agora, vamos a confeção deste meu prato favorito. É muito fácil. Só têm de ter um par de mãos que tenham trabalhado no mármore a vida inteira e criado seis filhos sozinho quando não havia quase nada e ainda ter sobrado vontade para uma neta.
O meu prato favorito nunca foi um prato. O meu prato favorito é a memória do meu avô. E ela também me faz sentir cheia, mesmo que fique, para sempre, com um prato vazio.

