Presidenciais: mais um debate sobre a saúde a fingir?
O tema saúde, e em particular o desempenho e a resposta do SNS, tem sido central no debate e nos discursos associados à campanha eleitoral para a presidência da república. Os diferentes candidatos têm trazido o assunto abundantemente para cima da mesa, certamente porque lhe reconhecem relevância e atualidade, mas, diria, sobretudo, porque identificam aqui uma das maiores preocupações da população. E assim é: o acesso a cuidados de saúde de qualidade e em tempo útil é hoje, julgo que ninguém disso duvidará, a preocupação número um dos portugueses. Como, aliás, o é em qualquer outro país da Europa e, de uma forma geral, do Mundo.
Ora, isto deveria ser um bom indicador de que os problemas que neste contexto nos afligem - e são muitos, bem conhecidos e bem identificados - iriam ganhar um importante contributo para se encontrar as necessárias respostas ou, pelo menos, o início da construção das mesmas, mas temo que não. Temo que seja apenas, e tão somente, mais do já conhecido jogo ou, melhor, bailado de sombras que vem caracterizando, há tempo demais, o debate sobre esta temática.
Com efeito, fica a ideia de que os diferentes atores com interesses e responsabilidades no assunto, onde se incluem, naturalmente e com peso acrescido, os governantes, procuram fazer mais uma gestão de perceções do que uma abordagem da realidade e de resposta aos verdadeiros problemas. O que não se diz e o que se diz, como se diz e quando se diz, parece ser mais importante do que o que se faz, como se faz e para que se faz.
Uma das consequências, talvez a mais folclórica, é a forma, que não me parece nada razoável, como a comunicação social amplifica os episódios que todos os dias entulham os noticiários, aparentemente sem qualquer critério a não ser o das audiências.
Uma outra, porventura muito mais perniciosa e preocupante, é a paralisia que este estado de coisas parece estar a causar na efetiva resposta aos problemas concretos. O tema escalda tanto os decisores e é tão corrosivo na credibilidade dos políticos que o que temos vindo a assistir, nomeadamente na última década, é à não decisão e à não implementação das reformas em que, afinal, em larga medida, todos estão de acordo.
Também eu entendo que é necessário e urgente quebrar este ciclo vicioso e dissipar o tal jogo de sombras, e também eu sou dos que acreditam que para isso acontecer terá de haver um pacto de regime para a saúde. Um pacto bem definido, com objetivos, com um plano de ação e com uma definição clara de responsabilidades. Algo que seja público e que possa ser acompanhado e escrutinado por todos. Imune a jogos ou bailados de sombras.
Acredito que o novo presidente da República, se quiser e tiver a coragem para assumir o tema como a sua grande bandeira, poderá ter aqui um papel verdadeiramente reformador: dando ao tema a prioridade, o protagonismo e a visibilidade que o mesmo necessita e impondo aos atores-chave uma agenda para a definição deste pacto e para a sua execução.
Se o conseguir, será, com toda a justiça, herói.
Neste processo, que será difícil e muito ambicioso, o presidente só poderá contar com um aliado - os cidadãos, que com ele vão estar de alma inteira, desde que sintam que não estão a ser enganados e que este não será mais um exercício a fingir.

