Há muitos e muitos anos que a programação de música na cidade do Porto depende quase exclusivamente da iniciativa privada.
Seria desejável que a segunda cidade do país tivesse uma programação municipal ativa e de qualidade para munícipes e visitantes, mas tirando o apoio a alguns festivais (mais logístico que outra coisa) e as noites de São João, passagem de ano e 25 de Abril, a agenda de concertos da cidade seria um deserto sem a iniciativa dos artistas e promotores privados.
O Porto tem um Teatro Municipal com uma programação intensa, mas praticamente não programa música, porque ao que parece a sua direção escolheu vocacioná-lo mais para as artes performativas. Podíamos ter no Porto uma programação musical de qualidade, como acontece em Braga (no Theatro Circo), mas infelizmente é cada vez mais comum que vários nomes novos e interessantes do panorama musical nacional e internacional vão a Braga e não passem no Porto.
Presumo que o Teatro Municipal queira delegar essa função à Casa da Música, que sendo privada tem algum financiamento público, acontece que esta programa muito pouca coisa que saia do espetro da chamada música erudita e o resto da programação é de iniciativa externa, ou seja, é proposta por promotores privados que pagam o aluguer da sala. Trocando por miúdos, é quase como se fosse uma quinta para casamentos, que aluga o espaço para a realização de festas alheias. Acho até que seria bom mudar o nome da Casa da Música para Casa da Música Erudita (tendo em conta a sua programação), ou então pôr um cartaz na fachada a dizer "Aluga-se Casa (da Música)" já que o aluguer de salas é o seu ganha-pão.
De resto, tudo o que acontece, de grandes salas (como o Coliseu ou o Super Bock Arena), a médios espaços (como o Hard Club), até às pequenas e interessantes estruturas (como o Maus Hábitos ou o Plano B), é alheio à programação municipal. E se fico feliz que a vitalidade do setor privado colmate a carência de uma programação municipal, reitero que é um dever da autarquia criar públicos, criar oportunidades para os músicos da cidade e ter propostas de programação que sejam complementares ao que o mercado garante, porque há sempre muita coisa que fica de fora.
Mais frustrante ainda é pensar que nem a criação de uma empresa municipal de cultura veio melhorar o panorama, pois se compararmos o orçamento da Ágora com o da EGEAC para a programação de música, rapidamente percebemos que o Porto precisa de mais apoio. Além de nem sequer podemos contar com Gaia ou Matosinhos, cuja agenda de música nos teatros municipais é irrelevante. (Esperemos que o novo programador do Teatro Constantino Nery contrarie esta tendência). Ora, como artista da cidade e consumidora de cultura, só posso lamentar. Uma cidade como o Porto, cheia de músicos e bandas que marcaram e continuam a marcar a história da música portuguesa, merecia melhor.
*Música

