Qual o preço do silêncio?
A proposta de Mark Zuckerberg para encerrar o processo judicial antitrust contra a Meta – um cheque de 450 milhões de dólares – não era apenas uma tentativa de acordo. Era um gesto calculado para testar os limites da democracia diante do poder financeiro. O “The Wall Street Journal” revelou o enredo: a intenção era lobby direto ao governo Trump, uma pressão política e uma crença implícita de que tudo tem um preço – até a justiça.
Num mundo em que cidadãos comuns são algorítmica e silenciosamente vigiados, Zuckerberg tentou – diretamente – silenciar o Estado com dinheiro e influência. O mais inquietante, porém, não está no que foi dito, mas no que se calou: a ausência de escândalo. Nenhum presidente indignado. Nenhum partido em alerta. Nenhuma rutura no sistema. Como se fosse normal uma empresa determinar o valor do tribunal que a julga.
A presidente da Federal Trade Commission, FTC, Lina Khan, chamou à oferta “delirante”. Mas o que ela realmente pareceu rejeitar foi o método. Porque aceitar seria oficializar a equivalência entre capital e impunidade. E, nesse caso, a Meta não seria apenas uma empresa – seria uma entidade acima das regras. O perigo maior não está no tamanho da Meta, mas na normalização do seu comportamento. No modo como ela, e tantas outras, aprendem que basta sentar-se à mesa com um cheque para reescrever o que seria, para todos os outros, inegociável.
E se há algo que os algoritmos ainda não detectam – mas a história acaba sempre por fazer – é o momento exato em que a democracia deixa de ser um sistema de leis e passa a ser umsimples mercado de influências. Mark Zuckerberg ofereceu o preço. O sistema, ao hesitar, revelou o seu valor.

