Quando a catástrofe escolhe o presidente
Chegamos hoje ao fim de uma estranha campanha eleitoral. Nestes dias, António José Seguro e André Ventura não escolheram cenários: foi o cenário da catástrofe que se abateu sobre o país que os escolheu, desenhando em cada dia um perfil de presidente da República com duas declinações radicalmente opostas. E isso interfere nos resultados de domingo.
Num contexto de grande aflição, a pergunta mais pertinente a fazer aos candidatos a presidente da República não é "o que faria se fosse presidente da República?", mas antes esta: "o que faz agora, com tudo isto a acontecer?". A resposta não foi muito clara, mas naquilo que disseram e, sobretudo, naquilo que fizeram, cada candidato mostrou mais sobre o que virá a ser do que horas intermináveis de discursos e de entrevistas.
Pouco tempo depois de a tempestade Kristin ter arrasado uma parte substancial do Centro do país, António José Seguro optou por um certo recato: visitas discretas ao terreno, palavras comedidas, presença sóbria. André Ventura fez outra escolha: deu-se a ver em espetáculo, carregou no drama e criticou fortemente o Governo. Seguro preocupou-se em reiterar que "está do lado das soluções", privilegiando a estabilidade; Ventura preferiu estar do lado dos problemas, valorizando a indignação. Eis dois perfis de presidente radicalmente opostos, a darem pistas muito eloquentes sobre a relação que pretendem ter com a sociedade e com os órgãos de soberania, sobretudo com o Governo.
Faltou, no entanto, a ambos trazerem para a agenda pública questões fundamentais. Nenhum valorizou a discussão das alterações climáticas, da estratégia de proteção civil, da segurança elétrica, do desenho do Litoral e das zonas ribeirinhas, do modelo de ocupação do território, do tipo de construção de complexos industriais... Em tempo de calamidade era urgente que esta tematização estivesse na agenda de dois candidatos a presidente da República.
Durante esta semana, todos andaram muito preocupados com a resposta que foi sendo dada, e quase ninguém se ocupou da causa de tudo isto ter acontecido. Teria sido importante que o tópico das alterações climáticas tivesse sido encarado como o eixo central em torno do qual todas as políticas deveriam girar: económicas, sociais, energéticas, territoriais. É certo que o presidente não legisla, mas aprova leis e pode obrigar o país a valorizar certos problemas.
Hoje António José Seguro e André Ventura vão fechar a campanha eleitoral com a promessa de um futuro mais estável, mas o chão que os sustenta é tudo menos firme. E isso torna frágil qualquer promessa eleitoral.

