Quando o futuro chega antes de janeiro
As mudanças de ano carregam sempre algo de simbólico. O que poderia ser apenas uma mudança anual no calendário ganha uma carga emocional coletiva que nos empurra para retrospetivas em dezembro e promessas em janeiro. Uma crença generalizada de expectativas e recomeço que, não raras vezes, escapa a qualquer gráfico, estatística ou raciocínio lógico, e que tende a reequilibrar-se, ou dissipar-se, com a chegada da primavera.
O final de 2025 pareceu, no entanto, atípico. Enquanto ainda organizávamos pastas e fazíamos balanços, o novo ano de 2026 já parecia decorrer, com promessas feitas muito antes do seu início. As negociações em torno de um previsível reposicionamento do contexto político internacional, os debates internos sobre um novo ciclo político presidencial português, a pressão para acelerar as taxas de execução de programas como o PRR antes do seu término ou a necessidade da transição digital e tecnológica alimentaram uma sensação de descompasso entre a velocidade das mudanças e a nossa capacidade de as acompanhar.
No plano nacional, contudo, os velhos hábitos persistem. Repetem-se análises e discursos centrados na limitação do potencial de crescimento do país, na fraca competitividade estrutural ou numa economia que, apesar de ter sido coroada no final de 2025 pelo "The Economist" com o título de melhor desempenho anual, continua a não convencer unanimemente uma sociedade que, em larga medida, sente a falta de redistribuição de tal desempenho económico.
Multiplicam-se as promessas de reformas, enquanto perduram irresolvidos os antigos problemas estruturais. Entre eles, a necessidade de simplificação administrativa, de aumento da produtividade empresarial, de valorização da qualificação avançada, de potencialização da escalabilidade da inovação e da tecnologia, ou de definição de acordos para políticas económicas e sociais previsíveis e transversais às legislaturas. Promessas com execução adiada, talvez porque a palavra "reforma" impõe um peso desproporcional em relação à coragem de a concretizar.
Deixando-me também alinhar com o espírito das promessas de mudança de ano, sugiro que, do nosso discurso coletivo, retiremos a palavra "reforma", substituindo-a por expressões mais leves e executáveis, como "transformação contínua" ou "modernização permanente". E talvez, no final de 2026, consigamos fazer uma retrospetiva honesta, sem prometermos 2027 antecipadamente, ou descobrir, novamente, que as nossas expectativas se dissiparam algures na primavera.

