Pode a Europa dar-se ao luxo de ignorar a saúde mental? Todos os anos fazemos uma breve pausa para falar sobre este tema. Mas, para milhões de europeus, não se trata de um assunto de um dia, trata-se do seu quotidiano.
É a estudante que tem medo de sair do quarto. O pai que não dorme há semanas. A enfermeira que cuida, mas não consegue pedir cuidados para si.
A importância do tema do Dia Mundial da Saúde Mental deste ano - a saúde mental é um direito humano universal - deve soar como um alerta. Os números são claros e preocupantes: uma em cada oito pessoas no mundo vive com uma perturbação mental. Na Europa, quase metade dos cidadãos (46%), segundo o Eurobarómetro de junho de 2023, afirmou ter sofrido de mal-estar emocional ou psicológico no último ano. E, entre os que enfrentaram dificuldades, mais de metade não recebeu qualquer tipo de ajuda profissional.
A pandemia levantou o véu sobre algo que muitos já sabiam. O isolamento, a pressão financeira e o medo criaram uma tempestade perfeita. Mas a tempestade não passou. Ainda hoje, as longas listas de espera, a escassez de financiamento e o estigma impedem muitas pessoas de obter os cuidados de que necessitam.
O custo? Não é apenas emocional - é também económico. De acordo com os dados mais recentes, os problemas de saúde mental custam à União Europeia mais de 600 mil milhões de euros por ano, o equivalente a mais de 4% do PIB. São dias de trabalho perdidos, produtividade desperdiçada e vidas desviadas do seu rumo. Estudos da OMS e da OCDE indicam que cada euro investido em programas de prevenção e tratamento pode gerar entre quatro e cinco euros de retorno económico - uma demonstração clara de que cuidar da saúde mental é também uma decisão inteligente para a economia europeia.
Por toda a União, os cidadãos estão a erguer a voz. Lemos cada vez mais sobre o sofrimento dos jovens europeus, exaustos e em luta com problemas de saúde mental. Eles representam o custo humano invisível por detrás das estatísticas - a dor que não se vê nos números, mas nas vidas interrompidas e nos futuros suspensos. E, ainda assim, à medida que cresce a sensibilização, o fosso entre a necessidade e o acesso continua demasiado profundo.
O acesso aos cuidados de saúde mental continua a depender do código postal. A geografia, o rendimento ou até a idade podem ditar quem recebe ajuda - e quem não recebe.
Por isso, o Grupo PPE - Partido Popular Europeu defende uma nova abordagem: colocar a saúde mental onde deve estar - no centro das políticas da União Europeia.
Em 2023, defendemos a criação de uma comissão dedicada à saúde pública. Foi apenas o primeiro passo. Hoje, essa comissão trabalha em estreita colaboração com a
Comissão Europeia e com peritos de referência, recolhendo dados, definindo estratégias e responsabilizando as instituições.
Melhores dados significam deteção mais precoce. E deteção precoce traduz-se em melhores resultados. Mas não se trata apenas de números - trata-se de pessoas, sobretudo dos jovens. A juventude europeia enfrenta níveis inéditos de stress, ansiedade e depressão. O Grupo PPE propõe a introdução de educação para a saúde mental nas escolas, mais apoio para professores e famílias, e vias rápidas de acesso a cuidados para jovens, dentro e fora do sistema educativo.
A literacia em saúde mental, comprovadamente eficaz na redução do estigma e na procura precoce de ajuda, deve ser uma prioridade transversal nas políticas de educação e juventude da União Europeia.
Acreditamos também que os serviços de saúde mental devem ser acessíveis e economicamente sustentáveis. Isso exige mais investimento, sim - mas também investimento mais inteligente: em formação, investigação, prevenção e cooperação transfronteiriça. Ninguém deve ser deixado para trás por viver num país com menos recursos ou por não poder pagar o terapeuta adequado.
A política de saúde mental não pode ser tratada como um tema secundário. É o alicerce de uma Europa saudável, produtiva e resiliente.
Portanto, pode a Europa permitir-se investir na saúde mental? A verdade é que não se pode permitir a não o fazer. Uma Europa mais forte começa com mentes mais saudáveis. Façamos da saúde mental um direito - não apenas em palavras, mas em ação.


