Se fôssemos amigos, hoje acordavam com uma mensagem minha no telefone a perguntar que tal correu a noite de ontem. Solteiros e comprometidos celebraram ontem o dia do amor romântico. Os comprometidos com um jantar à média luz e os solteiros com um convívio empoderador com outros amigos solteiros. Bom, na verdade, isto é o que sei que algumas mulheres fazem. Não faço a mínima ideia que planos têm homens solteiros neste dia. Se calhar juntam-se para fazer braços de ferro e desmanchar um cabrito no forno com as mãos.
Eu pertenço ao primeiro grupo. Aos tansos que vão jantar fora na noite mais cara do ano para uma mesa para dois e que dá por si numa sala cheia de outros casais, que se vão entreolhando e avaliando se serão eles o casal mais cúmplice e saudável da sala. Ainda assim, tenho o meu limite: não participar na brincadeira de ementas engraçadotas do Dia dos Namorados. É uma epidemia. Eu até me considero uma mulher romântica e ainda mais uma pessoa que adora comer, mas não consigo conceber uma refeição cuja lista apresente: Para começar - corações folhados. Primeiro beijo - Magret de pato com redução de vinho tinto. Amor e peixão - lombo de tamboril com migas. Sobremesa à escolha - ternuras de alfarroba com gelado de laranja. E depois, claro que o que acompanha toda esta refeição é um jarro de sangria de "frutos do amor". Não. Frutos do amor nem sequer existem. Não é um fruto de verdade. Frutos vermelhos, sim. É uma categoria. "Frutos do amor" não é nada. E por tudo isto, chega-se ao final e paga-se um balúrdio, porque até podem não acabar a noite num hotel, mas, pelo menos, tesos ficaram. Felizmente, são esses restaurantes os que ficam mais rápido sem mesas para reservar, tornando mais fácil marcar num estabelecimento que ofereça só "açorda de camarão". Mas, atenção, isto não é um exercício de superioridade da minha parte. É só o desabafo de alguém que mantém uma relação há algum tempo e já organizou vários dias de São Valentim. Para terem ideia, há dois anos, marquei um jantar com direito a workshop de danças calientes no restaurante. Qual foi o problema? Foram vários. Aprender os passos básicos entre garfadas de esparguete à bolonhesa faz da dança latina, em vez de bachata, só chata. Depois, decidiram separar homens e mulheres para lhes dar instruções específicas para uma dança final a pares e foi ver o pânico e o nó no cérebro dos professores quando perceberam que, no restaurante, havia casais homossexuais.
Há quem esteja também a aproveitar em modo escapadinha romântica. Duas noites marcadas num hotel com spa para avivar a paixão. Há poucas coisas que promovam mais o romance do que ter alguém que nos arrume o quarto e comer todas as fatias de bacon que apanhamos logo às 9 da manhã. E depois conseguimos brincar ao relaxamento porque planeamos passar a tarde toda num pequeno jacuzzi com mais quatro casais que não puderam deixar os filhos com ninguém. Metemos o fato de banho e lá vamos nós passar pela receção do hotel de roupão e touca na cabeça. E, como sabemos, não há nada que avive mais a paixão que estar de touca e pele toda enrugada da água quente.
Quem sofre muito neste dia, para além das pessoas que se aperceberam à última hora que quando a sua cara-metade disse "eu não ligo ao Dia dos Namorados", na verdade está à espera que se assinale este dia e por isso teve de estar quase três horas a tentar encontrar ramos de flores que ficassem abaixo dos mil euros, é a comunidade das ostras em Portugal. Todos os dias 14 de fevereiro é uma autêntica chacina. Milhares de exemplares são deglutidos por boquinhas apaixonadas com a esperança de que contribuam para uma noite de sexo louco, mesmo a arrotar a marisco. A ciência diz que não há grande relação das ostras com o apetite sexual, mas a verdade é que este aumento anormal de ácido úrico pode não aumentar a libido, mas aumenta bastante a probabilidade de ficarem com gota e que, por afetar muito a zona dos membros inferiores, também nos pode atirar para uma cama.
Mas como no fim de semana passado, este também é um momento muito divisivo da sociedade portuguesa. Há quem o viva abertamente, aproveitando a ocasião para arranjar uma nova almofada em forma de coração a dizer "I love you" e há quem o repudie porque não passa de mais uma celebração do capitalismo. Sejam vocês o tipo de pessoas que forem no São Valentim, eu só desejo que tenham passado o dia a aproveitar a aberta na meteorologia com que São Pedro nos presenteou.

