Vamos lá a coisas diferentes - mais encantatórias, menos deste quotidiano cheio de ficções. Vamos onde a ficção não é mentira. Um filme stop-motion de um brilhantismo emocional como quase não existe: Mary and Max (2009), do realizador australiano Adam Elliot.
Mas, antes, suponho que o stop-motion, a técnica de animação "quadro-a-quadro", seja a forma mais estranha de pôr bonecos a mexer. A forma mais estranha de transformar barro em personagens. Cada minuto de tela representa um esforço algo rudimentar, algo arcaico, de simular o movimento. Tal esforço muito demorado adaptou-se bem à estética de Wes Anderson e à morbidez de Tim Burton, mas tem como pontos altos os filmes Kubo and the Two Strings, Anomalisa e Caroline. Além de Mad God, uma distopia de lava, seres rastejantes, máscaras de gás e prisões que Phil Tippett demorou trinta anos a realizar - sozinho e maníaco, ele e os seus bonecos.
Creio que nunca dois bonecos viveram tanto como a Mary e o Max de Adam Elliot. Vejo-os claramente: ela, uma criança sardenta de dez anos que vive na Austrália; ele, um nova-iorquino para lá da meia-idade, gordo e a respirar pela boca. Um dia, Mary envia uma carta ao primeiro nome que encontra na lista telefónica. Do outro lado do mundo - e até do outro lado da vida -, Max espanta-se e responde.
Através da troca de correspondência, conhecemos a vida dos dois. Mary, afinal uma criança infeliz a quem as tragédias vão sucedendo. Max, afinal um quase recluso na própria casa devido ao autismo. A escrita de Adam Elliot encontrou nas cartas destes amigos mais do que improváveis o meio perfeito: é límpida, repleta de audácia, e tem momentos brilhantes em que a complexidade emocional só é superada por comparações inesperadas e ideias originais. Sobretudo desconcertantes: "Quando eu era novo, inventei um amigo imaginário chamado sr. Raviolli. O meu psiquiatra diz que eu já não preciso dele, portanto ele está sempre sentado num canto da casa a ler."
Mas isto de juntar qualidades é pouco. Parece uma lista de ingredientes para uma ficção bem confeccionada que, em último caso, não dá um grande prato. Mais do que uma soma de qualidades, a obra de Adam Elliot lembra as fábulas, embora sem decoro estereotipado - é como se o filme apelasse ao coração enquanto sentimento, mas também enquanto músculo. Não sei dizer de outra forma.
Apesar de condenada à distância - e que final tão próximo e tão distante, aquele -, a amizade de Mary e Max é um feito de escrita, um feito de stop-motion. Ideais para o dia de reflexão, os encontros desencontrados destes bonecos.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia

