Durante muitos anos, a economia portuguesa construiu uma parte significativa da sua narrativa em torno da capacidade de resistência das empresas. Resistir a crises financeiras, a ciclos económicos adversos, a choques externos sucessivos. Essa resiliência foi importante e, em vários momentos, decisiva para garantir a sobrevivência do tecido empresarial. No entanto, o contexto que hoje enfrentamos é distinto. O próximo ciclo económico não será definido pela capacidade de aguentar, mas pela capacidade de criar valor de forma consistente e sustentável.
As empresas portuguesas encontram-se, por isso, perante uma escolha estrutural. Podem manter modelos assentes em margens reduzidas, pouco valor acrescentado e limitada escala, ou podem assumir um caminho mais exigente, orientado para a diferenciação, para a sofisticação da oferta e para a competitividade internacional. Esta escolha não é meramente empresarial; tem implicações diretas na produtividade, nos salários e na forma como o país se posiciona na economia global.
Criar valor não é um conceito abstrato nem um exercício teórico. Significa, de forma muito concreta, evoluir de modelos baseados no tempo e no custo para modelos assentes no conhecimento, na inovação e na qualidade. Implica investir em tecnologia que aumente eficiência, apostar em talento qualificado, profissionalizar a gestão e desenvolver propostas que respondam a necessidades reais dos mercados. Implica também construir marca, ganhar escala e internacionalizar com estratégia, não por reação ou necessidade conjuntural.
Portugal reúne condições relevantes para dar este salto. Dispõe de talento, de uma nova geração de empreendedores mais preparada e de empresas com experiência acumulada em setores tradicionais. Ainda assim, persiste um conjunto de limitações estruturais que condiciona este processo. A fragmentação do tecido empresarial, a reduzida cooperação entre empresas, a dificuldade em ganhar dimensão e um contexto que durante demasiado tempo privilegiou a sobrevivência em detrimento do crescimento ajudam a explicar por que razão a criação de valor tem sido mais lenta do que seria desejável.
Neste quadro, a cooperação ganha uma importância central. A ligação entre empresas tradicionais e startups, entre setores maduros e inovação tecnológica, deixou de ser um tema aspiracional para se tornar uma necessidade económica. A inovação precisa de mercado para ganhar impacto e escala; as empresas estabelecidas precisam de inovação para se manterem relevantes. O mesmo se aplica à internacionalização. Num país com um mercado interno limitado, o crescimento sustentável passa, cada vez mais, pela capacidade de integrar redes internacionais e cadeias de valor globais.
Criar valor exige também previsibilidade, confiança e um ambiente favorável ao investimento. Exige políticas públicas que incentivem a reinversão, a capitalização e a inovação aplicada, mas exige igualmente uma mudança de atitude por parte das próprias empresas. O próximo ciclo não será ganho por quem se limita a proteger o que tem. Será ganho por quem investe, coopera e assume risco de forma informada e estratégica.
A economia portuguesa já demonstrou, repetidas vezes, que sabe resistir. O desafio que se coloca agora é diferente e mais exigente. Trata-se de saber se conseguirá criar valor suficiente para pagar melhores salários, reter talento e crescer com ambição. É dessa resposta que dependerá a solidez do futuro económico do país.

