A dimensão humana do primeiro-ministro não resiste ao choque com a realidade após a noção, cair de ficha, de que o fogo queimou bem mais do que floresta. A forma como Luís Montenegro habita as praias do Algarve e as bancadas do Parlamento não difere muito no que à naturalidade diz respeito. Há uma espécie de tranquilidade à prova de bala, próxima do homem comum, que o faz poder pecar em favor dos seus ou reservar as suas legítimas férias, obtendo sempre um perdão popular do cidadão. Há um certo heroísmo na certeza de que se deve fazer o que se quer e o que se entende, mesmo quando a percepção indicaria que a Festa do Pontal jamais se poderia ter realizado naqueles termos. Olhar para a expressão facial de Luís Montenegro não o faz recuar à aprendizagem de como se faz política na Universidade de Verão da JSD. Mas o arrependimento na sua imagem pública surgiu mais rápido que um Fórmula 1 no Algarve e vai queimar em lume brando, atiçado pelo rescaldo da oposição.
A proposta é simples e não requer grandes cedências ou sacrifícios senão considerar geografia e calendário: enquanto a situação dramática dos fogos florestais se mantiver num país que não parece aprender lição alguma com a área ardida e com o sacrifício de vidas, nenhum primeiro-ministro pode gozar férias no Verão. Para ele, assim como para alguns ministros com responsabilidades e ainda que com imolação das nossas divisas, seria preferível um país tropical em dezembro como destino familiar à escolha. A época balnear, aquela de calções na mão, devia ser proibida para qualquer governante com responsabilidades no território. É muita areia e pouco verão, mesmo na "silly season". Se nenhum político é bombeiro ou apaga fogos com as próprias mãos, também é verdade que não pode primar pela ausência e ou pela falta de recato, sobretudo quando uma das grandes catástrofes nacionais se anuncia e se cumpre, quase todos os anos, como uma fatalidade. Talvez fosse o fim da demagogia e um alívio para todos, isto de não termos que lidar com a contagem mediática dos dias de férias dos governantes em prime-time de fogos florestais.
Podemos pactar pela floresta por 25 anos ou propor 45 medidas ou mais para vítimas dos incêndios, com ou sem taxas moderadoras. Podemos declarar o estado de calamidade num acto demagógico ou serrar as asas aos Canadair que nem sequer levantam. Quando o mal arde para se ver, a contagem de espingardas vem sempre com o cheiro a napalm. Importante seria perceber, de uma vez por todas, que o esquecimento criminoso, no momento em que os incêndios se apagam, é o maior condutor de fogo que existe. É preciso coragem e antecipação. E essa coragem passa por encarar a propriedade florestal como uma obrigação do Estado que não se substitui aos particulares mas que, também por isso e antes da desgraça anunciada, dispensa as suas autorizações ou as suas desculpas privadas, como se a propriedade ao abandono fosse intocável, irremediável e inultrapassável por políticas de segurança comum.

