Rita Lee dizia muitas vezes que queria envelhecer como uma feiticeira. Queria dominar a alquimia de transformar o tempo em aliado, em vez de lutar contra ele.
Queria transformar a experiência em sabedoria e a sabedoria em liberdade, porque esse sempre foi o seu superpoder. E assim fez. Envelheceu, em frente ao seu público, fazendo música, escrevendo, opinando, postando, acertando e errando, sempre sem moderação. E como foi seu apanágio a vida inteira, fê-lo com rebeldia e rasgo, "unapologetically", como se diz em inglês e dando (por isso mesmo) lições de juventude.
Envelhecer é difícil, sobretudo para as mulheres e principalmente para as mulheres do "showbiz". Mas a dificuldade acrescentada está no facto de envelhecer já ser um ato de subversão "per se", num mundo (e ainda mais numa indústria) que nos recusa esse direito. Como se tivéssemos de desaparecer antes de nos tornarmos "perecíveis" como os iogurtes. Para não deixarmos de ser decorativas. Para não incomodar os senhores. Porque, como às flores, só nos autorizam a frescura e o viço, porque ver murchar sabe a mau agoiro.
Rita Lee fez-lhes essa afronta de envelhecer rebelde e fiel ao seu estilo roqueiro, desbocada e livre como sempre foi, audaz e certeira nas frases que por estes dias pudemos ler nas redes sociais e que representam (tanto quanto as suas músicas) uma eterna inspiração para todas as que, como ela, ambicionam o direito à feitiçaria da maturidade, sem pedir desculpas.
Uma feiticeira que faz rock, que escreve livros, que tem prazer, que fala alto, que pinta o cabelo de vermelho e depois deixa de pintar para usá-lo alvo como a Lua, que se fascina com o universo e seus mistérios, que é mãe de três, mulher de um amor da vida inteira, avó tatuada e musa de um país continental, tem direito a tudo: a viver a vida toda, com seus excessos e suas calmarias, a envelhecer como quiser, sobretudo com o espírito jovem, e a morrer (mesmo que nos doa muito). Mas, sobretudo, tem o direito a ser fruto da realidade, com toda a carne e todo o osso, no génio e no sucesso, nos vícios e vicissitudes, nas plumas e lantejoulas, nas rugas e na doença, para (mesmo antes de se livrar da matéria) ascender ao plano mitológico, eterna como sempre foi.
Que privilégio partilhar a língua portuguesa com uma mulher tão genial, pioneira em tantas conquistas, defensora da liberdade, que exercia a arte como estilo de vida, como lugar no Mundo, como posicionamento, para nos lembrar a todas que podemos ser o que quisermos, porque a vida é esse desejo, essa líbido, essa pulsão. Depois dela, a fasquia subiu, agora não nos basta envelhecer como feiticeiras, temos o dever de envelhecer como Rita.
*Música

