Sempre fui notívaga. O meu ritmo circadiano endógeno nunca foi condizente com o horário que a civilização estabeleceu como sendo o certo. Isto porque acordar antes das dez sempre foi, para mim, bastante doloroso e, mesmo que o faça consistentemente há anos, até às onze da manhã estou sempre sonolenta, independentemente das horas a que acordei e das horas que dormi. Digamos que enquanto o meu corpo se adapta ao estado de vigília, o que pode tardar, sou uma mulher de poucas palavras e que prefere contenção de estímulos. É inevitável, eu de manhã bocejo até enquanto faço exercício físico.
Todo o meu percurso escolar foi marcado por essa diferença de fuso horário. Era como se eu estivesse em jet lag eterno e tivesse de fazer um grande esforço de adaptação, por estar descolada da realidade, pairando em sonolência até meio da manhã. Na prática, foi como se nunca estivesse presente nas primeiras duas horas de aulas, mesmo nunca faltando à escola.
No infantário chorava desalmadamente quando me obrigavam a sair da cama e a vestir-me, sendo que o meu problema não era ir para a escola, era ir para a escola àquela hora.
Na faculdade, por me deitar mais tarde, não me lembro sequer de estar presente, mesmo que apenas fisicamente. E recordo-me muitas vezes de quando vivia em Barcelona e tinha reuniões com a minha orientadora de doutoramento às primeiras horas da manhã, pelo esforço sobre-humano que falar castelhano exigia ao meu cérebro em descongelamento. É que a sonolência não me permite ter a destreza de pensamento suficiente para discutir coisas complexas, muito menos em línguas estrangeiras.
Acresce a esta condição o facto de não beber café, o que não seria nenhum problema, se o mundo não fosse tão rígido em relação à convenção de um horário de expediente comum. E mesmo entendendo a necessidade de nos organizarmos coletivamente numa rotina, acho que para muita gente seria muito mais produtivo começar o dia uma ou duas horas mais tarde. Até porque, os notívagos costumam manter a capacidade de trabalho madrugada fora (quando todos os outros já não conseguem render) e o facto de começarem mais tarde não quer de todo dizer que sejam mais preguiçosos ou incompetentes.
Dito isto, afianço que há um certo preconceito para com os "inimigos da manhã", mesmo que já tenha sido provado pela ciência que estas discrepâncias de ritmos são absolutamente normais. E contra mim falo: quantas vezes não me ligaram de manhã e eu fingi já estar perfeitamente acordada e funcional, mesmo estando estremunhada?
Que mal haveria em confessar que ainda estava na cama, assumindo orgulhosamente a minha condição de vespertina? É que agora que sou mãe e deixei de ter direito a despertares lentos e silenciosos, arrependo-me de ter desaproveitado a oportunidade de viver sem pejo essa minha condição e deixo aqui um forte abraço a todos os que comigo partilham o ritmo circadiano.
*Música

