A expressão "roubo de igreja" é especialmente cara aos portuenses e, de entre estes, aos portistas. Foi criada e imortalizada por José Maria Pedroto, famoso treinador do Futebol Clube do Porto (FCP) das décadas de sessenta e setenta.
Como sabemos, a expressão "roubo de igreja" pretende consignar um ato, uma decisão ou omissão de arbitragem que, por erro grosseiro ou má-fé predeterminada, provoca grave lesão desportiva ou classificativa de um clube ou equipa.
Esta expressão - trazida até aos dias de hoje e aplicável a outras realidades ou cenários - ocorreu-me da leitura e interpretação que faço quanto à forma como este Governo pretende fazer uso dos Fundos Comunitários ainda disponíveis.
Ninguém em Portugal ignora que temos um país assimétrico em quase todos os parâmetros de avaliação, seja na diferença, mais óbvia, entre o litoral e interior (ou, na moderna designação, "territórios de baixa densidade"), seja na distribuição de serviços públicos, no investimento público, nas portagens e dificuldades várias a que algumas zonas de Portugal parecem condenadas, como se de um "pecado original" fossem portadoras.
Por isso - por isso mesmo - subsistem na União Europeia os chamados "fundos de coesão" que, como o nome indicia, pretendem promover um aumento da coesão regional, esbatendo as brutais assimetrias que são sentidas entre países e dentro destes, entre regiões.
Sem precisarmos de grandes estudos ou indicadores - e eles existem - é por demais evidente que as "regiões de convergência" que carecem de especial atenção em Portugal são o Alentejo, o Centro e o Norte.
Ainda com a memória do famoso efeito "spill over" ou efeito difusor, à custa do qual nos quiseram "vender" que (mais e mais) investimento na região de Lisboa tinha efeito na economia de todas as outras regiões, apetece perguntar até onde irá o desplante ou, na nossa linguagem mais clara e direta, o "roubo de igreja" de Fundos Comunitários.
Vejamos o que se avizinha e adivinha.
Do Domínio da Competitividade e Internacionalização, vão ser realocadas verbas, com outros fins e destinatários. Também das regiões de convergência já citadas e em que o Norte se enquadra, vão ser retiradas verbas para o Ministério de Educação ou Economia (no caso do IEFP e dos instrumentos de apoio ao emprego). Dito de outro modo, aquilo que era "para alguns" passa a ser para "todos", sem acautelar a natureza dos apoios regionais e temáticos.
Se juntarmos a esta quadro a pergunta: quem vai pagar a ampliação da linha de metro em Lisboa ou a renovação da linha de Cascais?, podemos avaliar com especial clareza como - em quase tudo - "o rio corre para o mar" e não só estamos a falhar grosseiramente a expectativa de maior coesão, como estamos a potenciar o seu aumento.
Se, a fazer fé no ditado popular, pobre "rouba" e rico (só) "desvia" em bom rigor, o título desta crónica deveria ser "desvio de igreja"... mas quero evitar derivas centralistas, desde logo na linguagem (e sotaque).
Como se tudo isto não bastasse, António Costa foi acometido de um espasmo descentralizador e decidiu (arrastando o desastrado e desamparado ministro da Saúde) transferir a sede do Infarmed para o Porto.
Colocado perante a notícia, manifestei publicamente apreço pela medida, no pressuposto de que esta resultaria de uma estratégia mais vasta, montada aquando e por causa da candidatura do Porto a sede da EMA (Agência Europeia do Medicamento) e para dar corpo a alguma "clusterização" do setor da saúde a norte. Em boa hora ressalvei algum ceticismo pela capacidade do Governo levar avante tal "empreitada", face à previsível onda de "protesto centralista".
Respeito a justa indignação de todos os envolvidos - especialmente os profissionais do Infarmed que foram confrontados com a notícia pelos media - como percebo o espanto do setor e dos dirigentes desta Autoridade Nacional do Medicamento.
Não tenho ilusões sobre quem vai ganhar este braço de ferro. Oxalá me engane mas, na melhor das hipóteses, o Porto receberá a sede jurídica e administrativa do Infarmed, naquela cosmética política a que nos vão habituando.
E é desta forma, mais expressa ou mais dissimulada, que o Norte se vê sucessivamente espoliado de oportunidades e meios, cavando mais e mais o fosso que nos separa de Lisboa.
E isto não é ser piegas... é "chamar aos bois pelos nomes", como diz o povo, claro.
* DEPUTADO DO PSD
