Sobre o comissário do que é, mesmo antes de ser, o mais ambicioso festival literário em Portugal, posso começar por dizer que é alto, magro e gosta de usar fatos que lhe assentam à medida. Nunca o vi de gravata e ainda não percebi se é perfeito. Fez 40 anos, tem a vida organizada desde o minuto que acorda até ao instante que se deita. Não tem televisão em casa, o seu mundo é habitado por livros e é adorado por fotógrafos que tentam sem sucesso saber dos seus afetos, sonhos ou amores. É luminoso e sombrio, é editor e escritor, é político e antipolítico, é intelectual e popular, é comunicador e introvertido, é terno e implacável. É este homem, desejado por muitos, temido por outros tantos, detestado por quem desconfia do sucesso e de tipos magros e altos com fatos à medida que, ainda por cima, são grandes no que fazem. Rui Couceiro é também um grande escritor. Nos seus dois romances há personagens que ameaçam tornar-se vivos, o "Baiôa" que combate pela memória numa aldeia impossível de salvar, e a guia turística que acompanhamos no Morro da Pena Ventosa. É agarrado à vida, mas transformando-a na sua própria ficção. Também é apaixonado pelo fim, amancebado por ele, mas por acreditar que o pode convencer a ser o seu Mefistófeles privativo. Rui é meu amigo, um orgulho que o seja. O mais completo dos que conheço, o escolhido para no Porto, em junho do próximo ano, receber o mundo com a sua simpatia tão próxima e tão distante, única forma de poder entender todas as línguas numa Babel que o aproximará do seu destino.
Leitura: 2 min

