1. Foi assim nos fogos, é assim nos temporais de inverno. Sempre que uma desgraça natural sacode o Portugal distante, somos confrontados com os custos dolorosos da interioridade, nessa generosa fatia do território que está demasiado longe para o bom e demasiado longe para o mau. Ali, no país que parece sangrar em todas as calamidades, só a entreajuda e os laços inquebrantáveis das comunidades tornam as vivências suportáveis e dignas. O Estado, tantas vezes ausente quando tem de estar presente, esfuma-se ainda mais quando se afasta do eixo da influência política. São os autarcas, e as instâncias intermédias de poder, que assumem as rédeas. Como se viu agora a propósito da devastação que varreu uma parte considerável da Região Centro.
É imperioso, por outro lado, que se avalie a forma como se comunica em crise. Banalizámos os alertas vermelhos, laranjas ou amarelos. Já pouco ligamos às SMS com os avisos que, muitas vezes, não se concretizam. O Estado, que não pode estar em todo o lado, tem ao menos a obrigação de não falhar como agente ativo de prevenção coletiva. Comunicando de forma eficaz e simples, sendo mais consequente nas medidas de contenção dos danos. Porque os cenários extremos serão mais frequentes. E nem é bom pensarmos se, em vez da madrugada, aquele temporal bíblico tivesse escolhido o meio da manhã para descarregar a sua ira.
2. António Leitão Amaro é um dos mais competentes e inteligentes ministros do Governo. Foi, por isso, com algum espanto que assistimos ao vídeo autopromocional que plantou nas redes sociais em que se mostra atarefado, ao telefone, a lidar com os efeitos da tempestade. Tudo devidamente embrulhado numa estética cinematográfica. A tentação de mostrar serviço é grande, sobretudo quando os holofotes mediáticos estão na força máxima, mas o decoro e a discrição que se impõem em momentos desta gravidade não podem ser levados pelo vento. Tirou o vídeo, esperemos que tenha tirado uma lição.

