O Alto Douro é belíssimo, pelo modo como a montanha se liga com o grande rio e seus afluentes, mas sobretudo pelo efeito da ação do homem, construtor da paisagem vinhateira. Há desenhos de geometria variável e espaço para amendoeiras, oliveiras e retalhos onde a vegetação responde naturalmente às condições climáticas de tipo mediterrânico, em solos pobres, sobre xistos e grauvaques.
É natural que o Alto Douro atraia muitos visitantes, compensando, em parte, a forte perda de residentes. Mas, se é a paisagem o principal atrativo, a sua preservação é um grande problema. Porque, como ela depende sobretudo da vinha, a continuada rendibilidade do vinho é essencial, tanto como a inexistência de elementos perturbadores da qualidade cénica.
Acredito que há razões para otimismo. O vinho do Porto é conhecido e valorizado; o vinho de mesa tem uma enorme qualidade e aumenta de preço (pelo menos no consumidor), o que deve permitir a viabilização de uma das produções vitivinícolas mais caras do mundo, em vista da baixa densidade das cepas e da reduzida mecanização. Apesar do excesso de produção.
Por outro lado, não há especiais alterações paisagísticas, salvo a criação da albufeira do Tua, nem sobrecarga turística. Estão de parabéns os que têm ajudado a que o caminho se faça sem grandes volumes, hoteleiros ou outros. Há quase só pequenas e belíssimas unidades, como a paradisíaca Quinta de Santa Marinha, no Castedo, onde estive há dias, e restaurantes que somam cozinha competente à excelência da matéria prima, como o Cepa Torta (Alijó), o Calça Curta (Foz Tua) e a Taberna da Julinha (Pocinho).
Pena que a riqueza produzida (no vinho, como na eletricidade) beneficie pouco quem lá mora e o rendimento esteja tão mal distribuído...
*Geógrafo/Professor da Universidade do Porto

