Alguém recordava, há dias, que, em 1977, quando Portugal recorreu ao FMI, a bandeira que justificava todos os sacrifícios tinha a ver com a consolidação da Democracia, chegada havia três anos. Em 1983, quando recorremos a nova ajuda externa, foi a adesão à Europa que nos motivou. Agora, em 2011, que bandeira temos? - Pagar o que devemos, honrar compromissos deveria ser justificação bastante, mas todos sabemos que não é. Basta sair à rua e esbarrar nalguns cartazes que falam no roubo do FMI para se perceber que há quem alimente duas ideias erradas: a de que podemos dispensar a ajuda externa ou até pura e simplesmente não pagar.
Gostaria de acreditar que está suficiente interiorizada na sociedade portuguesa a convicção de que vamos ter de mudar de vida. E de que isso significa viver de acordo com o que temos. Por isso precisamos também de produzir mais. O Estado Social com que sonhámos vai regredir e muito. Por isso é desejável que nas negociações com a troika haja espaço para acautelar os direitos dos que menos têm. Os impostos vão aumentar. Mas este pode ser um momento para começar do princípio em sectores que persistentemente se têm revelado no mínimo anacrónicos, e que funcionam mal, como é o caso da Justiça. O período que vivemos é sui generis: aproxima-se uma campanha eleitoral e, em simultâneo, discutem-se as condições e a duração da ajuda externa. Isto quer muito simplesmente dizer que parte dos programas dos partidos fica completamente à mercê dos acordos que o Estado firmar com a troika. Não há lugar a promessas, desta vez. Quando muito, só a projectos para depois de.... Depois de pagarmos, obviamente, o que significará alguns anos.
Mas esta sujeição à inevitabilidade da ajuda externa não deveria significar falta de ideias. E se no discurso político têm sobrado acusações várias que já pouco sentido fazem, faltam ideias, algo de mobilizador, uma luz, ténue que seja, no fim do túnel. Como se compreende que, nomeadamente o PSD, por ser o maior partido da Oposição e o principal candidato à formação de Governo, tanto tempo depois da queda do Governo não tenha um programa, não tenha avançado uma ideia, não tenha feito mais do que mostrar-se disponível para governar, mesmo que não se saiba quem é a equipa? E o PS, persistindo em políticas idênticas às que aqui nos trouxeram, tenta explicar a situação com o chumbo do PEC IV, como se nada se tivesse passado antes disso.
Quando, para a semana, se souber o programa da troika, ou seja, quando se começar a ter uma ideia do que vai custar-nos a austeridade, os portugueses certamente ouvirão os políticos, mais uma vez, acusar--se uns aos outros pelo estado a que chegamos. Sem uma bandeira que nos motive, sem ideias, podemos facilmente concluir que também nos faltam líderes. Não que precisemos de qualquer coisa de sebastiânico. A verdade é que, no estado em que estamos, bastar--nos-ia, certamente, ter alguém em quem confiar. Alguém que nos explicasse que vamos viver muitas dificuldades, que nos justificasse cada um dos passos, mas alguém que o fizesse com tanta segurança, clareza e honestidade que todos aderiríamos ao que aí vem sem pestanejar, convencidos de que a receita para a cura não será mais um logro e que não nos vamos perder pelo caminho. E se quisermos ganhar para a Democracia muita gente que se tornou descrente e está pronta a engrossar as fileiras dos que não votam ou o fazem em branco, precisaríamos ainda de que alguém, com algum distanciamento e sem intuitos punitivos, nos explicasse muito direitinho tudo o que se passou. Mas isso, certamente, é pedir demais, é entrar no campo da utopia.
