Separações e confluências da eleição presidencial
A formidável vitória de António José Seguro no passado dia 8 permitiu simultaneamente uma separação e uma confluência das águas. Por um lado, a eleição foi uma espécie de ETAR da República, separando a salubridade liberal da insalubridade iliberal; por outro, fez confluir as águas na bacia hidrográfica da comunidade política portuguesa, que permanece unida em torno de valores inegociáveis, desde a Direita democrática à extrema-esquerda, mostrando o quanto alguns dos antagonismos cultivados nos últimos anos têm de hiperbólico e de artificioso. Esta confluência democrática é uma vitória em si mesma e uma carta de marear para futuros compromissos. Seguro saiu de cena para não dividir e voltou para unir. Verdade seja dita, ele uniu (quase) tudo o que podia ser unido.
A pretexto de uma neutralidade mórbida, alguns diretórios partidários preferiram ficar à margem daquela confluência, fundeados em lagoas lamacentas. O caso da IL é especial. A deplorável postura do seu candidato inibiu um partido liberal de apelar ao voto contra o candidato iliberal. Cotrim Figueiredo escusava de ter sido o Adamastor da IL.
Uma das tarefas do novo presidente da República é ser a força hidráulica capaz de fazer com que muitos dos que as águas separaram da nossa comunidade política, a montante da sua eleição, voltem a confluir connosco a jusante, nos próximos anos. Não falo, claro, dos nadadores já irremediavelmente sugados pelos poços da pós-verdade e da xenofobia. Falo dos recuperáveis.
No seu discurso de vitória, António José Seguro apresentou já um dos seus planos: combater a "narrativa da decadência" nacional. A ideia da decadência, que antes atuava nas elites como um opiáceo (recordo que, há apenas um par de anos, o PSD a repetia ad nauseam na versão do "empobrecimento"), contamina hoje o imaginário popular de fatalismo e fantasmagorias perigosas.
O mito da decadência desmonta-se com pedagogia. A armadilha do fatalismo desarma-se com o heroísmo da razão. Seguro terá de ser um presidente pedagogo e racional. A política dos afetos pode dar uma satisfação epidérmica imediata, mas, como se viu, não confere flutuabilidade duradoura para navegar, sobretudo em águas desconhecidas ou, como é o caso, acossadas por piratas.

