"Serão [afinal] precisas mais operações?"
Este início de ano acordou em sobressalto, não só pelo número de homicídios que em 2025 terá atingido o valor mais alto desde 2018, com mais de 20% em relação ao ido ano de 2024, aos quais se juntaram vários casos recentes que deram ainda mais lastro à eterna questão, será que o crime violento estará a aumentar, será perceção, será o grau de violência que se intensificou? Para juntar à festa, fazendo jus à efeméride, tivemos o famoso caso no Bairro Alfredo Bensaúde, no dia 31, com um festival de tiros, em jeito de despedida do ano que terminava, e que veio inundar a comunicação com a partilha de um vídeo que exibia vários indivíduos a disparar várias armas, algumas delas automáticas, fazendo soar alarmes a campainhas por toda a capital. Aliás, o caso tomou tal proporção que foi o mote para o Presidente da Câmara de Lisboa convocar extraordinariamente o Conselho Municipal (restrito) de Segurança, enunciando o caso como algo inédito e que não poderia voltar a acontecer nas ruas de lisboa, clamando por mais policiamento (e mais polícias) e mais operações.
Não que Carlos Moedas esteja errado em pedir que casos destes não voltem a acontecer, mas é bom lembrar que não é caso inédito no passado recente, e muito menos em Lisboa, isto a não ser que a nossa memória seja mesmo primária, de trabalho ou, como se costuma dizer, de curto prazo, porque casos destes houve vários, e vários desses foram investigados pela PSP, que veio eficazmente a apreender as armas utilizadas (ou parte delas) e responsabilizar estes aprendizes de atiradores. Há então que ser cada vez mais implacável e eficaz no que toca à realização de ações operacionais e investigatórias que persigam quem detém e usa estes instrumentos altamente letais, seja em jeito de "sarau", o que nem sempre corre bem como se viu em Setúbal, seja para uso nas suas atividades ilícitas, de extorsão, roubo ou, como é repetidas enunciado pelos RASI, para agredir mortalmente terceiros.
Para que se tenha então uma ideia dos grandes números da última década (2015-2024), sobretudo junto de quem ainda vê com maus olhos as operações da Polícia que se destinam à apreensão de armas como estas, deixa-se aqui uma breve recordatória do trabalho operacional realizado, grosso modo, pela PSP e GNR: foram apreendidas 82045 armas de fogo; foram realizadas 3309 Operações Especiais de Prevenção Criminal, tendo nestas sido apreendidas 1180 armas de fogo e 963 armas brancas, entre milhares de outras com configurações diversas. Penso que estes números sejam bem elucidativos, e que lembrem, quem tanto desinveste e desgoverne o policiamento de primeira linha, tanto preventivo como investigatório, que essa depauperação terá consequências, sobretudo nas grandes áreas urbanas onde, como se sabe, tem existido um aumento tremendo da densidade populacional, quer fixa, quer flutuante.
Quando alertamos para isto fazêmo-lo com consciência e sentido de estado, mas também preocupados com o que deixaremos de conseguir fazer, ou que faremos muito mais limitadamente: assegurar a defesa e proteção as pessoas.
Já que não somos ouvidos, pode ser que oiçam os clamores deste e de outros Presidentes cuja preocupação é, naturalmente, legítima.

