Silêncio. A guerra na Ucrânia já dura há quatro anos
Silêncio! A guerra na Ucrânia, prevista pelo invasor para quatro dias, já dura há quatro anos. E, não, não é uma data para assinalar, porque há datas que não se assinalam: suportam-se.
Quatro anos de vidas perdidas, cidades destruídas, mães que esperam os filhos que não regressam, filhos que choram as mães que não voltam a ver, crianças com o futuro em suspenso... Quatro anos de ruído - o ruído ensurdecedor das armas e das explosões, o zumbido dos enxames de drones, do choro que não aparece nas estatísticas da guerra na Ucrânia.
E, no meio de tanto barulho, só apetece pedir silêncio.
Silêncio das armas. Silêncio dos mísseis, dos drones, dos tanques, dos blindados, das metralhadoras... Não o silêncio cúmplice, não o silêncio que encobre a injustiça, mas o silêncio que cala a violência. O silêncio que permite ouvir o pulsar das cidades. O silêncio como primeiro gesto de humanidade.
Silêncio das vozes belicistas, das proclamações exaltadas, das certezas infalíveis, das análises feitas a distância segura nos estúdios de televisão e nos gabinetes dos governos.
A guerra na Ucrânia transformou-se num espetáculo triste, comentado em tempo real, ou num tabuleiro de xadrez onde se movem peças com a frieza dos mapas. Falta a pausa. Falta a consciência de que cada avanço ou recuo no território ucraniano tem nome, rosto, história, sangue igual ao nosso, lágrimas salgadas como as nossas.
Silêncio para honrar os que caíram em combate: soldados e civis. Jovens arrancados à pressa das suas rotinas de todos os dias. Heróis improváveis, feitos de resistência. O silêncio é a única linguagem que respeita verdadeiramente os mortos. Não lhes atribui
adjetivos, não os instrumentaliza, não os transforma em argumento. Apenas os recorda. Apenas os imortaliza como memória heróica de uma guerra insana.
Silêncio também para pensar o essencial. A guerra ensinou-nos pouco sobre estratégia e muito sobre fragilidade. Mostrou-nos como a paz, que julgávamos garantida, é afinal um bem frágil e como a indiferença é terreno fértil para a barbárie.
Pedir silêncio não é desistir de justiça. Não é ignorar responsabilidades nem apagar a memória. Pelo contrário, é criar espaço para que a razão prevaleça, para que a diplomacia possa aprimorar o caminho e para que a política volte a ser a arte de construir pontes e não a arte de aprofundar trincheiras.
Quatro anos depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, o mundo habituou-se às imagens da guerra. Esse é talvez o maior perigo: a normalização do mal. Por isso, hoje, mais do que discursos, apetece recolhimento; mais do que proclamações, recomenda-se contenção.
Que se faça um silêncio trégua. Um minuto, uma hora, um dia. O tempo suficiente para nos lembrarmos de que cada vida perdida é irreparável e de que a paz começa, por vezes, por uma pausa.

