Sociedade tecno-digital e esfera pública (IV)
Economia da atenção e vieses cognitivos.
A sociedade automática, algorítmica, artificial e imersiva para a qual nos dirigimos tem o seu caminho pejado de desvios de atenção, distrações e vieses cognitivos, em ordem a obter conformismo, adesão, servidão voluntária. Uma verdadeira hipnocracia ao serviço do universo orgânico das grandes corporações tecno-digitais e respetiva constelação. Se quisermos, há uma ideologia sobre a perceção do real e a plurissignificação da realidade e uma cultura de representação e simulação, onde as atividades de encenação e composição são de tal modo extenuantes que nos deixam próximos da exaustão. No final estamos exaustos e no dia seguinte tudo recomeça de novo.
Por estes dias, a guerra da informação, desinformação e contrainformação, que já aí está em plena operação, leva-nos a pensar que a realidade tem várias camadas e que num contexto tão sobrecarregado de hipertexto e hiperligações a realidade se parece muito com um campo de cebolas. Com efeito, estamos perante camadas sucessivas de realidade, desde o mais elementar senso comum até ao mais refinado bom senso, da realidade material visual à realidade aumentada e virtual, do juízo politicamente correto até ao juízo politicamente brutal, do juízo parcial até à plurissignificação do juízo hipertextual, da hipótese absurda até à descoberta acidental, da informação à desinformação e contrainformação, da insinuação ligeira até à mais requintada ironia, do mais disparatado negacionismo até à anunciada pós-verdade.
Nesta vertigem informativa e neste labirinto cognitivo há hoje cada vez menos evidências discursivas e narrativas e, portanto, a nossa confusão cognitiva é cada vez maior. Não obstante, constatamos que declinar as múltiplas facetas da realidade significa, também, aumentar o seu campo de observação, multiplicar os ângulos e as perspetivas de olhar para um problema. Porém, talvez a maior limitação para abordar o problem-solving neste novo ambiente seja a descontextualização, nua e crua, que as bolhas de informação e as novas formas de inteligência carregam consigo e que, estou certo, nos farão passar inúmeras provações.
Como sabemos, o nosso mundo encolheu dramaticamente. Porém, raramente a realidade se deixa apanhar e, agora, muito mais líquida, tornou-se mais escorregadia e furtiva, ou seja, tornou-se mais inverdade e mais pós-verdade. Além disso, a velocidade
é a nossa imagem de marca e cada velocidade representa uma realidade, ou seja, uma grelha de leitura da realidade. Vejamos, então, algumas das perspetivas ou ângulos de observação que fazem, hoje, a plurissignificação da realidade, mas, também, os pontos de fuga por onde passam os vieses cognitivos e os erros que cometemos recorrentemente.
O primeiro ponto ou ângulo de observação é aquele que nos é dado pela velocidade que os nossos olhos conseguem acompanhar, ou seja, o imediatismo da observação, uma espécie de pele fina para as primeiras visualizações, devolve-nos uma primeira realidade algures entre o senso comum e o bom senso.
O segundo ponto ou ângulo de observação é aquele que nos é dado pela digitalização, a realidade aumentada e virtual e os ambientes simulados. Aqui reconstituimos uma realidade que era, em muitos casos, incompleta e incaracterística, mas que aparece, agora, aos nossos olhos como uma segunda camada de realidade mais profunda e complexa. Ou seja, estamos agora imersos em complexos ambientes inteligentes que a inteligência dos objetos, a inteligência artificial e os interfaces cérebro-computacionais colocaram à nossa disposição. É a metalinguagem normalizadora do algoritmo-mestre, mas são, também, os gémeos digitais que chegam.
O terceiro ponto ou ângulo de observação é aquele que nos chega por via do protocolo e do procedimento algorítmicos. Estamos na era dos dados e das multidões e obrigados a suspeitar para conhecer. Digamos que estamos a atualizar para o século XXI o princípio cartesiano da dúvida metódica ou sistemática onde, apesar da evidência dos dados, não devemos confundir a correlação estatística com a explicação racional. Entre a descontextualização da evidência estatística e a plurissignificação da realidade, é aqui que nos encontramos hoje, ou seja, perante uma camada de realidade que desafia o protocolo e o procedimento científicos.
O quarto ponto ou ângulo de observação da realidade é aquele que nos chega por via dos riscos globais, sistémicos e interdependentes. É aquela camada de realidade onde crescem o risco moral, o passageiro clandestino e o caçador furtivo e, ainda, os danos colaterais significativos, mas, também, os cisnes negros, as interações fortuitas e as descobertas acidentais. Para descodificar esta camada de realidade estamos obrigados a desenvolver treino específico e capacidades especiais para entender e antecipar como se forjam e desenvolvem as interações fortuitas e as descobertas acidentais, pois elas dificilmente caberão no interior das nossas métricas conceptuais habituais.
No final, quando tudo e todos comunicarem entre si, pessoas, objetos e inteligência artificial, através de uma internet totalmente acessível e distribuída, teremos
atingido o paroxismo absoluto da economia da atenção, uma verdadeira histeria coletiva de informação e comunicação, distração e completa confusão cognitiva, uma espécie de liquidez cognitiva da sociedade tecno-digital. O campo das ciências sociais e humanas, em especial, composto de conceitos, categorias, tipologias, padrões, normas e procedimentos, precisará de rever completamente o seu código de comunicação para lidar com as notícias falsas e o enviesamento do conhecimento.
Aqui chegados, e para ilustrar alguns pontos de fuga relativos aos vieses cognitivos, vou utilizar uma área de atividade que me é mais familiar e onde tive oportunidade de observar alguns erros recorrentes que, ainda hoje, acontecem com frequência. Refiro-me à programação e implementação de medidas de política pública com impacto nos territórios de baixa densidade. Eis alguns desses vieses cognitivos:
- Os vieses da psicologia e economia comportamental que nos aliciam a confundir as expetativas, perceções e opiniões, fáceis de recolher e difundir, com os factos da realidade, mais difíceis de comprovar;
- Os vieses cognitivos estão frequentemente do lado da procura, ou seja, a falta de literacia económica, financeira e digital impede os beneficiários/destinatários das medidas de política de fazerem uma leitura correta da realidade e da sua adaptação a essa realidade;
- Os vieses cognitivos estão, também, do lado da oferta quando o protocolo algorítmico não reconhece as várias fases e estádios de um ciclo económico e social e o seu exercício preditivo e prescritivo confunde correlação estatística com explicação e prospetiva racional, o que pode gerar alguma confusão no desenho de medidas de política conjuntural e de política de reforma estrutural;
- A confusão e os vieses cognitivos acontecem na distinção entre eficiência e eficácia e entre economicidade e efetividade, na implementação de políticas públicas com uma enfase especial nos programas integrados de base territorial;
- A confusão e os vieses cognitivos acontecem quando o protocolo algorítmico não nos deixa ver com clareza as diferentes componentes de uma estrutura de custos e as suas especificações: custos de contexto e operação, de formalidade, certificação e regulação, de emergência, mitigação e adaptação, de investimento e de oportunidade económica;
- A confusão e os vieses cognitivos acontecem, igualmente, quando a normalização algorítmica não nos deixa ver com clareza os efeitos externos, positivos e negativos, que resultam de uma deficiente multiescalaridade e governança multiníveis e que se traduzem,
na prática, em inúmeros processos de redundância entre escalas e níveis de governo e administração,
- A confusão e os vieses cognitivos acontecem, ainda, nos processos de transferência de valor entre o subsistema científico, o subsistema de inovação e o subsistema das cadeias produtivas, sobretudo, quando o procedimento algorítmico acaba, na prática, por dissimular, ocultar e subestimar essa transferência,
- A confusão e os vieses cognitivos acontecem, finalmente, nos procedimentos de candidatura, consulta, execução da despesa, auditoria, regulação e avaliação, quando esses procedimentos, uma vez automatizados e normalizados, se convertem em verdadeiros processos kafkianos na relação da administração com o beneficiário.
Nota Final
Em síntese, lutamos com grandes dificuldades para administrar a nossa economia da atenção e prevenir os vieses cognitivos. Os pontos de observação e de fuga referidos conduzem-nos até à plurissignificação da realidade. Esta realidade é cada vez mais virtual e a inteligência deixou de ser meramente neurobiológica para se instalar em ambientes digitais que, no limite, podem ser transumanos ou mesmo pós-humanos. É a sociedade algorítmica e o ciberespaço que chegam e que nos transportam para lá das fronteiras convencionais onde somos atores e personagens constantemente comprometidos numa vertigem representativa, utilizando inúmeras máscaras que usamos conforme as circunstâncias e as conveniências. Nessa cultura da representação e simulação as atividades de composição são de tal modo extenuantes que nos deixam próximos da exaustão. No final estamos exaustos e no dia seguinte tudo recomeça de novo.

