"Alguns voluntários que estiveram a mexer em lã de rocha, material isolante utilizado na cobertura do Estádio de Leiria, que se encontrava espalhado à volta do equipamento desportivo, na sequência da tempestade Kristin, ficaram com comichão nos braços e com a vista irritada". Assim começa uma reportagem publicada ontem pelo JN. Afinal, as notícias sobre a morte da solidariedade eram manifestamente exageradas.
A 29 de outubro de 2024, a Dana - depressão isolada em altos níveis - provocou chuvas torrenciais e inundações devastadoras na Comunidade Valenciana e noutras regiões de Espanha, provocando 229 mortos. Agora, a depressão Kristin provocou, até ao momento, oito mortos em Portugal. Há menos de dois anos, a Federação dos Bancos de Alimentos de Espanha (Fesbal) queixou-se da generosidade em excesso. A maioria dos seus 54 centros de recolha de bens estavam cheios e, a 6 de novembro de 2024, o colapso logístico era iminente.
Em Portugal, ainda não chegámos ao ponto de haver um excedente de solidariedade perante aquela que, como lembrou ontem o primeiro-ministro, foi "a maior tempestade de sempre registada no país", pelo menos desde que há registo deste tipo de fenómenos atmosféricos. No entanto, é de louvar a entreajuda desinteressada de muitos num tempo em que a procura da felicidade e autonomia individuais prevalecem, sobretudo nos grandes meios urbanos. A gritante vulnerabilidade de precisar de alguém é, na verdade, a cola que mantém a nossa saúde mental intacta. Nos piores momentos, percebemos que todos precisamos de ajuda. Hoje são eles, amanhã podemos ser nós.

