13 de março de 1964. Catherine Genovese foi esfaqueada numa rua de Nova Iorque perante dezenas de passivos transeuntes. Ninguém chamou a polícia. Ninguém ajudou. Ninguém ousou intervir. O violento homicídio motivou vários estudos para compreender o comportamento individual em contexto de crime ou de emergência quando há outras pessoas presentes (testemunhas). Cunhado em 1968 por John Farley e Bibb Latané, na sequência de uma famosa experiência social, o "efeito espectador" - também conhecido como "síndrome de Genovese", em homenagem ao caso que originou a pesquisa - postula que, quando há várias pessoas a assistir a uma situação crítica, é menos provável que alguém faça alguma coisa. Aliás, quanto maior for o número de espectadores, menor a probabilidade de intervenção.
29 de julho de 2022. Alika Ogorchukwu, um vendedor ambulante nigeriano, é brutalmente espancado até à morte numa movimentada rua da cidade italiana de Civitanova Marche. O ataque, perpetrado por um homem a cuja namorada a vítima tentou vender um maço de lenços, foi documentado por várias testemunhas, que gravaram vídeos e os partilharam nas redes sociais. Ninguém intercedeu. O caso está a gerar revolta, já há comparações com George Floyd, afro-americano assassinado por um polícia branco, e muitos questionam: como é possível tantas pessoas testemunharem um crime brutal sem prestar auxílio?
Independentemente de eventuais motivações raciais - e da real existência de doença mental que o agressor alega - e que só a investigação poderá escrutinar, o que alarma é o comportamento de manada, a passividade perante um vil ataque a outro ser humano, o silêncio dos putativos "bons" perante o grito dos "maus", que tanto preocupou Martin Luther King. Todos esperam que seja o outro a agir, ninguém quer ter a iniciativa de intervir, não há culpados - é a chamada difusão da responsabilidade. E quando ninguém tem culpa, somos todos responsáveis.
*Editora-executiva-adjunta

