O fenómeno não é recente e tem acontecido um pouco por toda a Europa. Quando a direita moderada opta por adotar a agenda da extrema-direita - seja por acreditar nela ou meramente por taticismo político - acaba absorvida e ultrapassada. Podemos simplificar o fenómeno e dizer simplesmente que os eleitores descartam a cópia, preferindo o original, mas a questão vai muito para lá disso. Há uma legitimação das ideias extremistas que passam a entrar no discurso comum, uma validação dos medos e preconceitos, que acaba por se infiltrar na sociedade e alterar as balizas do discurso político legítimo.
No nosso país, no rescaldo das presidenciais, percebemos que há uma alta taxa de rejeição do partido mais à direita, mas este tem vindo a subir de eleição em eleição, mesmo quando se pode vislumbrar uma derrota no resultado deste último escrutínio. Falta saber o que vai acontecer ao partido que alinhou com o Chega na matéria em que tal seria completamente impensável: imigração. Talvez Montenegro ainda não tenha percebido que se está a pôr a jeito para os ataques de um Chega que até numa derrota eleitoral se consegue galvanizar.
Talvez fosse útil ao primeiro-ministro observar o que está a acontecer em Espanha, com a tática do Partido Popular nas regionais a sair furada. Ao eleger como principal inimigo o PSOE, Alberto Núñez Feijóo antecipou eleições para forçar derrotas aos socialistas e ganhar governos regionais. Conseguiu, mas não contava com a ascensão do Vox, que agora está em posição de exigir lugares de destaque nos executivos, para viabilizar investiduras, como explicou o JN na edição de ontem. Atirou-se sem olhar para trás para os braços de uma extrema-direita que vai continuar a apertar até asfixiar.

