1. Costuma dizer-se que, depois da tempestade, vem a bonança. O provérbio não é apenas usado por cá e reflete uma incurável e saudável crença da humanidade de que melhores dias virão. Leio na internet que russos e argentinos adotaram uma versão mais cínica, em que se diz que, depois da tempestade, vem a inundação. Pelo menos desta vez, esta última até reflete melhor os dias que se vivem em Portugal, atingido por depressão atrás de depressão. O que não quer dizer que se deva cair no fatalismo associado a esta segunda versão. Somos impotentes para impedir fenómenos extremos, mas algo podemos fazer para nos protegermos e garantir um socorro eficaz no imediato. Algo que não aconteceu desta vez. E é por isso que, passada a sucessão de tempestades, virá o tempo de apurar responsabilidades ou omissões, políticas ou técnicas, pessoais ou coletivas. Exigir aos ministros que expliquem o que fizeram, quando e porquê, e o que ignorarem. Chamar as cadeias de comando da Proteção Civil nacional, regional e local. Interrogar quem manda no oligopólio das comunicações e no monopólio da energia. Ouvir autarcas e cidadãos. Há um local e um formato onde isso se pode fazer de forma eficaz, democrática e pública: na Assembleia da República, através de uma comissão de inquérito.
2. A tempestade e os seus efeitos, com mortes, destruição de casas, fábricas e infraestruturas públicas, levaram a que alguns, de forma oportunista, pusessem em causa as eleições de hoje. Respeite-se a decisão dos autarcas (poucos) que não tinham condições para pôr de pé a máquina eleitoral. Mas diga-se, como fez o presidente da Marinha Grande, um dos concelhos mais castigados, que a democracia não se adia. Se há conclusão a tirar destes tempos agitados é que os portugueses precisam de um provedor que esteja acima das guerrilhas político-partidárias, da demagogia, do populismo, que seja capaz, de forma acutilante, ainda que serena, de vigiar os vários poderes do Estado, e exigir-lhes ação, munido da força dos votos que lhe são entregues diretamente. Mas isso só é possível se resistirmos à tentação de ficar em casa, à espera que passe chuva. Hoje é dia de escolher e de votar.

