Acontecimentos políticos das últimas semanas catapultam-nos para o reconhecimento de que algumas grandes mudanças que se estão a operar na sociedade não são aproveitadas para o progresso da Humanidade, mas sim para o regresso aos tempos da pirataria. A uma enorme velocidade, são afastados das agendas políticas alguns temas universalmente reconhecidos como vitais para um melhor futuro. Por exemplo, desaparece espaço para se tratar das questões do clima e do ambiente, ou da utilização racional e universal dos avanços tecnológicos e científicos.
Os cidadãos comuns são desafiados a serem piratas nas mais diversas áreas da sua vida e a acreditarem que é pela guerra que a Humanidade se vai entender e prosperar. Um pirata no poder, Donald Trump, utiliza a condição dos Estados Unidos da América como grande potência - e os enormes poderes desse Estado - para, com grupos de corsários ao seu serviço, agir para lá de todos os limites que até há pouco tempo considerávamos invioláveis, embora soubéssemos que, com invocações mentirosas, houve violações.
São muito amplas as causas do desastre político em que estamos mergulhados e não cabe neste espaço uma exposição e reflexão mínima sobre todas e cada uma. Contudo, impõe-se mencionar algumas.
Chegamos à situação presente porque toleramos a acumulação desmedida de riqueza por parte de uma ínfima minoria, riqueza essa obtida por atos de pirataria autêntica, mesmo quando o roubo é "legal". Não houve capacidade para evidenciar que o liberalismo económico, na atual fase do sistema capitalista, precisa da liquidação de valores democráticos e também de forças ultraconservadoras e fascistas no poder, para prosseguir a sua caminhada.
Tolera-se a impunidade ética e moral dos muito poderosos e há dificuldade em demonstrar que a cultura do individualismo exacerbado - alimentado por conceitos manipulados como o de "mérito" - faz medrar a ganância pura e dura, e conduz à negação dos valores que estruturam o bem comum.
O desarme das instituições de intermediação na sociedade, onde se facilitava a partilha de valores e se formavam compromissos coletivos, aconteceu no mesmíssimo tempo em que se instalou o pós-verdade nos meios de comunicação e nas redes sociais. Isto abriu espaço à ideologia da pirataria e, dolorosamente, é feito em nome da liberdade.
À predisposição permissiva de grande parte da sociedade e aos impactos de uma globalização de marca ocidental, falhada, juntam-se as disputas geoestratégicas e geopolíticas em curso. Tudo converge para que o caldeirão da desgraça aqueça.
Há muito a fazer e podem construir-se travões, mas é preocupante que a União Europeia não saiba para onde se voltar e possa já estar a tolher a ação de países importantes que a compõem. No plano europeu, como no nosso país, houve governantes com intervenções patéticas. Surgem disputando lugar nos corsários do trumpismo.

