Um dia, aos doze anos, comecei a ler o romance "A Leste do Paraíso", de John Steinbeck, e tudo indica que ainda não acabei. Em Agosto voltei ao vale de Salinas, terra-mãe de Steinbeck, voltei a Adam, Caleb e Aron - isto é, voltei a mim mesmo, eu, que nunca visitei a Califórnia.
Os grandes romances pairam como fagulhas sobre um incêndio que nunca se apaga por se alimentar de material eterno. As nossas pulsões, incongruências, as maravilhas escondidas, as sem-vergonhas descaradas, esse constante passo de dança entre a bondade e a maldade, o belo e o feio.
Steinbeck, um falso inocente, aquece-se ao lume com uma aparente simplicidade de escrita e de construção de personagens que é puro engano. O livro brilha de fagulhas.
Algumas até são defeitos: só por ternura familiar se compreende que Steinbeck use a primeira pessoa (ele, neto de Samuel Hamilton, um dos personagens) para logo a desvirtuar, descrevendo situações e pensamentos que o próprio nunca poderia ter testemunhado. É a mais bela falsa primeira pessoa que tenho lido, o que me deixa muito tranquilo quanto a ir buscar certas considerações às personagens que vou escrevendo. Não estou lá - mas Steinbeck também não estava.
Todas as outras são qualidades: a tese do livro é a de que a luta entre o bem e o mal nos precede e que estamos sujeitos a forças não necessariamente nossas - certamente bíblicas, no sentido de bem descritas no Génesis. A vida de Adam Trask é o palco onde essas coisas antigas se jogam, como se passassem pelas gerações buscando quem dominar.
O livro dá-nos como descendentes de Caim. Nisto, põe dois filhos em confronto de amor com o pai, um perfeitamente bom, o outro perfeitamente humano; isto é, este último cheio de dúvidas, preso à liberdade do livre arbítrio, e a andar quase em bicos de pés junto ao abismo. Todos o conhecemos: a queda quotidiana por falta de aceitação, por busca de amor, a queda que existe no espírito quando olha para si mesmo e se acha órfão.
E faz outra coisa: a grande figura de Cathy Ames, ela como uma luva para o afastamento completo do amor, a pura cegueira da maldade. Mas também a excessiva bondade do filho perfeito, que é tão cego na bondade como Cathy o é na maldade. Um e outro são estéreis.
Quer dizer que a verdadeira luta ocorre nos meandros do livre-arbítrio, a leste do paraíso, a terra que herdámos. Mais do que isso: no timshel, palavra hebraica ficcionalizada que Lee, o empregado de Adam, apresenta como alternativa às traduções, em inglês, do que Deus diz a Caim quando o expulsa: em vez de uma ordem para dominar o mal, a alternativa steinbeckiana - que se traduz como "tu podes" - dá-lhe a escolher. Caim pode apagar a marca e dominar o mal.
Numa época em que o erro parece não ter perdão, e em que nos renegamos uns aos outros para leste do paraíso, convém murmurar para nós mesmos "timshel, timshel", como Adam ao filho na última cena magistral.
O autor escreve segundo a antiga ortografia

