Na próxima terça-feira, assinalam-se quatro anos da invasão da Ucrânia pela Rússia. O país tem lutado não apenas por território ou soberania, mas para garantir que haverá famílias com um quotidiano normal, ou seja, futuro.
Nestes anos, muito se tem falado de linhas de combate e de negociações, e muito pouco da vida de todos os dias dos ucranianos. É esse lado que a revista "L"Express" revela esta semana num artigo que fala da luta do país para continuar a existir. Os dados apresentados são terríveis: a taxa de natalidade baixou drasticamente e a taxa de mortalidade subiu de forma vertiginosa. Quase seis milhões de ucranianos fugiram para o estrangeiro; outros cinco milhões vivem em territórios ocupados. Os cemitérios não chegam para sepultar tantos mortos. Há um país física e socialmente à deriva.
A invasão russa separou casais e provocou um aumento brutal do número de divórcios decorrentes do excesso de distância. Em guerra, o tempo não cura. Corrói. Os jornalistas relatam casos de crianças pequenas que fugiram do país com as mães e que deixaram, neste tempo, de reconhecer o pai e, se ainda o reconhecem, desenvolveram uma relação de indiferença face a um sentimento de abandono que bloqueia todos os afetos.
Os corpos dos soldados também se ressentem profundamente deste conflito: cerca de dez por cento dos ferimentos afetam o sistema reprodutor. Em janeiro de 2025, o Governo ucraniano aprovou uma lei que permite a recolha e conservação gratuitas de espermatozoides e ovócitos. O objetivo é proteger a possibilidade de que filhos possam nascer, mesmo que talvez nunca cheguem a conhecer os pais.
Enquanto do lado da Ucrânia se evidencia um esforço por preservar a vida, do lado da Rússia os média internacionais ecoam sinais de uma organização para a suspender. Num artigo intitulado "A vida em distopia", a revista "Nouvel OBS" fala esta semana de um território russo onde as crianças são doutrinadas desde a escola, a imprensa foi silenciada e a dissidência vai sendo criminalizada. Segundo o relato de Natacha Tatu, "1500 jornalistas fugiram do país e 66 redações foram transferidas para outros países". Dentro de portas, o país desenvolve uma assinalável economia de guerra. Desemprego historicamente baixo, salários elevados no setor militar e algum crescimento económico amorteceram o impacto das sanções e neutralizaram, para já, a contestação social.
São vidas opostas, estas que se desenvolvem nos dois países. Do lado da Ucrânia, o dia a dia resiste entre a destruição e a incerteza. Do lado da Rússia, o quotidiano é moldado pelo silêncio e pelo medo. Ainda será longo o caminho da paz.

