Mal saíram as grainhas das uvas passas do nosso organismo e já estamos a desmontar a árvore de Natal. Por mim, tudo o que é ornamento era enfiado numa caixa de cartão no dia 26 de dezembro para só voltar a ser aberta daqui a um ano. É esquisito ter um pinheiro a piscar sem presentes debaixo ou estar a comer cereais de uma tigelinha vermelha com renas desenhadas. Nem sabe bem. Outra coisa que vai demorar algum tempo até nos voltar a apetecer é o bacalhau. O primeiro detox do ano é este. Hoje, fui à inauguração de um supermercado e fiquei com náuseas só de passar na secção do fiel-amigo. Tive de tapar o nariz para aproveitar uma promoção bombástica nas postas da cabeça e das caras. Porque posso ter enjoado do bacalhau, mas nunca de uma boa poupança. Um dia, temos de falar de inaugurações de supermercado. Tem jogos para ganhar pacotes de arroz carolino, se tivermos sorte a girar a roda, um tipo ao microfone a anunciar a promoção nos bifes do pojadouro durante a próxima hora, funcionários a oferecer fatias de broa e crepes acabados de fazer. É um evento interessantíssimo e, se nunca foram a um, aconselho. Eu sou do tempo em que, na minha terra, quando se inaugurou o primeiro supermercado, até um concerto dos Santamaria fizeram no parque de estacionamento. Mas enfim, numa altura em que os lucros destas grandes empresas aumentam, não só não se refletem nos salários e condições dos trabalhadores, como também na falta destes momentos culturais.
A esta altura, para além de desmontar a árvore, também já devemos ter visto a previsão do nosso signo para o ano que agora começa. Vale sempre a pena investir algum tempo nisto, dado que a nossa mãe entrou em trabalho de parto no dia x, à hora y, no local z, logo, surpreendentemente, em 2026, vão acontecer-nos coisas boas e também coisas más. É incrível. Eu não percebo nada de astrologia, mas tenho o pressentimento de que o ano pode começar mal para todos, segundo as mais recentes sondagens para as próximas eleições de dia 18. Portanto, eu diria que depende da Lua em Vénus, mas também da cruz em estúpido.
2026 vai ser um ano em que a classe trabalhadora vai ter de saber lidar com as frustrações que se avizinham: vamos ter dois feriados ao sábado e dois ao domingo, o que vai ser uma chatice para quem já estava a pensar em aproveitar para gastar menos dias de férias. Vamos ter de nos coordenar com o resto da equipa pelas semanas de férias e acabar a digladiar-nos com a Paula da contabilidade pela sexta-feira do Dia do Trabalhador. Para além disto, ficámos a saber que tudo vai aumentar. Mas para isto não é preciso ser grande vidente. O salário mínimo vai ser alvo do acréscimo de uns estonteantes 50€, passando assim para 920€ mensais. São até capazes de receber algum telefonema do gestor do banco, todo tolo, a interrogar-vos pela fortuna que de repente começou a cair na conta. Eu não começaria já a planear umas belas férias com este valor, porque se o salário aumentou, também as portagens, a água, a conta do telefone, a renda, a prestação ao banco, os seguros, o peixe, a carne, os ovos e o pão aumentaram.
Portanto, ainda não dá para irem para as Maldivas duas semanas mas, se fizerem bem as compras, dá para uma sande de queijo com três fatias. Não se ponham é a pensar em metê-la na tostadeira que a eletricidade também vai aumentar. Uma das habituais resoluções de ano novo é começar a fazer exercício, mas não é preciso. O que não vai faltar, durante o ano, é ginástica para, com 920€, conseguir sustentar uma vida minimamente digna.
A esta altura, para além de desmontar a árvore, também já devemos ter visto a previsão do nosso signo para o ano que agora começa. Vale sempre a pena investir algum tempo nisto, dado que a nossa mãe entrou em trabalho de parto no dia x, à hora y, no local z, logo, surpreendentemente, em 2026, vão acontecer-nos coisas boas e também coisas más. É incrível.

