Era a primeira prova de fogo de um ministro que nasceu impopular e derrotado e que rapidamente ficou fragilizado pela novela do ex-futuro-consultor Sérgio Figueiredo. A um mês de apresentar o seu primeiro Orçamento do Estado, Fernando Medina tinha a oportunidade de tentar a reabilitação de uma imagem titubeante e insegura com a apresentação do pacote de medidas para atenuar o impacto da inflação mas, a meio da tarde de ontem, uma nota do seu gabinete dava conta de que ele só explicaria hoje, com outros membros do Governo, o plano de resposta ao aumento dos preços. E sabia-se que seria António Costa - o hábil gestor de crises, o mata-borrão que ilude os problemas estruturais do país com manobras de diversão a precisar de inverter a queda de popularidade - a anunciar, sozinho, os destaques do Conselho de Ministros extraordinário, depois de passar por Belém para ter a bênção presidencial.
Quando vários países já têm em marcha os seus programas de ajuda, por cá fazemos anúncios às prestações. Ontem, o primeiro-ministro apresentou as linhas gerais do plano "Famílias primeiro", hoje os ministros fornecem os pormenores, os apoios para as empresas ficam para depois, medidas de contenção energética idem.
Indiferentes a estas manobras de comunicação, os portugueses estão é preocupados em saber como o Governo vai ajudar a minorar os efeitos da subida dos preços e das taxas de juro com os dois mil milhões de euros de excedente da execução fiscal (leia-se dinheiro dos nossos impostos). E o sagaz Costa lançou um mix de apoios para as famílias, que vão desde cheques diretos (125 euros para quem ganha menos de 2700 euros, 50 euros para cada filho e o correspondente a meia pensão para reformados) a pagar já em outubro, à redução do IVA da eletricidade, ao travão de 2% para subida das rendas e ao congelamento dos preços dos transportes. E muitos milhões, que pouca expressão terão no bolso das famílias, e menos ainda no dos pensionistas, que veem baixar a expectativa de aumentos em 2023. Chega? Para os portugueses, certamente que não. Quanto à popularidade do primeiro-ministro, que estava quase em estado comatoso, é seguramente um balão de oxigénio.
*Editora-executiva-adjunta

