Um bife por ano não pode ser sul-americano
Intranquilo com o crescente antieuropeísmo do "Sul Global" e ciente da urgência de encontrarmos novos aliados, o que faz o Parlamento Europeu? Vota o envio para o Tribunal Europeu de Justiça de um acordo comercial com quatro democracias sul-americanas, cujas negociações se arrastam há um quarto de século, adiando por mais dois anos a sua ratificação. Falo, claro, do Acordo com o Mercosul, dotado de um arsenal nunca visto de salvaguardas e cláusulas protetoras dos interesses europeus, em especial do cronicamente excedentário setor agrícola.
Se a convergência da extrema-direita e da extrema-esquerda em torno de patriotismos de fancaria não traz novidade, é de pasmar que 35 eurodeputados socialistas (e 24 liberais!) tenham comungado neste atentado à soberania europeia em nome da soberania dos "éleveurs" franceses.
O centro-esquerda, que tem vivido de costas voltadas para o mundo rural, ter-se-á amedrontado com a desgarrada de tratores em Estrasburgo, adquiridos com dinheiros de uma PAC que entrega 1/3 do Orçamento da UE a 2,5% da sua população ativa. Mas não teve escrúpulos em votar contra os interesses da fileira industrial, outra das principais beneficiárias do acordo. É obra.
O espaço público foi alagado por uma bátega de falsidades, meias-verdades e mistificações. Para amostra, a carne sul-americana que vai inundar os talhos de Paris a Viena corresponde, afinal, a um bife com redução ou isenção tarifária por ano, por europeu - além dos bifes que já entram com os custos alfandegários atuais e nos limites da quota autorizada. Enfim, as quotas desobrigadas de tarifas dos principais produtos agrícolas em jogo equivalem a menos de 2% da produção europeia.
Os agricultores mais protegidos e subsidiados que há no Mundo queixam-se da concorrência "desleal" dos agricultores sul-americanos. Estes, sem uma Política Agrícola Comum à ilharga, queixam-se do protecionismo agrícola dos europeus...
Hás dias, António Costa, Von der Leyen e Narendra Modi assinaram, em Deli, um pré-acordo comercial entre a UE e a Índia, a maior democracia do Mundo. Será que o Parlamento Europeu se prepara para o defenestrar?
Talvez prefira celebrar acordos com o próprio umbigo. Ou esperar, sentado, que Trump escaqueire umas quantas fileiras agrícolas europeias à martelada tarifária.

