A estética do Natal é viciante. É tudo querido e tudo remete para uma casinha de madeira, com a lareira sempre acesa, no meio de uma serra nevada. Mesmo que estejamos num t2 em Alcabideche, com quartos interiores. Há mínimos para esta quadra: uma árvore toda engalanada com enfeites a fazer pandã com os cortinados e passar dias a ver artigos internet que começam por "5 dicas para o seu gato não esfrangalhar a sua árvore este Natal". Nesta altura, também todos temos o acessório de Natal, e aqui temos de fazer uma escolha importante que vai definir a nossa consoada: de um lado, a equipa Rena, que passa o jantar com uma bandolete com hastes coladas e a tentar não vazar a vista de nenhuma criança quando tem de se baixar. E do outro a equipa Pai Natal, que enverga os mais variados tipos de gorros de Pai Natal, que podem ir variando de tamanhos, materiais e até cores. Eu faço parte desta, porque com o frio que faz, é a opção mais inteligente. Mas acima de tudo, o que não pode faltar são as luzinhas, meu Deus. As luzinhas. Não há coisa de que o ser humano mais goste, a seguir a ser coçado nas costas, do que luzinhas coloridas a piscar. Tenho para mim que as únicas luzes que os portugueses não gostam são mesmo os piscas quando fazem rotundas. Não se percebe porquê. Depois, há tudo com o tema Natal. Panos de cozinha, cheirinho para o carro, roupa interior. É imperativo estarmos equipados para a noite de 24 para 25 de dezembro, porque se há coisa que esta quadra não tem, é manual de instruções.
Os supermercados enchem-se das formiguinhas que vão carregar o dobro do seu peso em ovos, garrafas de óleo e pernas de peru. As mulheres de lista de compras na mão, incluindo aquele último presente para juntar aos restantes que vai oferecer em nome do casal e que o marido só vai saber quando o ente querido o abrir. Em casa, as nossas avós, mães e tias são as grandes operárias desta celebração. Cada uma no seu posto, mão de obra especializada, vão recheando azevias, fritando filhoses e até aquela tia que não tem muito jeito para a cozinha vai lavando a loiça que se vai acumulando e organizando o número de pratos e talheres para pôr na mesa. Os homens estão na sala. Conversam. Fumam. Partilham vulnerabilidades entre si, que é como quem diz a ida ao mecânico em que pediram 1500€ para trocar a correia de distribuição. Todos para a mesa. Estão as couves e o bacalhau. O polvo cozido no ponto. Azeite e vinagre para ir passando de mão em mão e o pão a encher os cestos. "Há ovo cozido?", pergunta o primo que esteve ao telemóvel desde que chegou e cumprimenta com um aperto de mão bem frouxo e que teve de ser chamado três vezes para a mesa. (Acho sinceramente que o conceito de missa do galo vem dos carolos que queremos dar na cabeça destas pessoas). Não há ovo cozido. Uma tia levanta-se rapidamente com a rapidez de quem sente que pôs a pata na poça e não preparou alternativa para os fidalgos que torcem o nariz ao fiel-amigo. "Vou cozer uma caixa, porque pode haver mais quem queira". Santa. Com a pressa, vai queimar a ponta dos dedos para conseguir servir um a um. Ao longo da ceia, somos confrontados com a família que nos calhou em sorte e vamos ficando a par de quantos eleitores do partido de extrema-direita temos a mais este ano e na distância que vai aumentando entre nós e eles. Percebemos o quão fácil é sermos estranhos com quem nos mudou a fralda, nos carregou ao colo e que amamos profundamente.
Sempre que alguém tenta encetar uma conversa política, exige de nós uma reflexão: debatemos com estas pessoas que já estão com três ginjinhas no bucho cada uma ou desviamos as atenções com um "então e o Markl? Dois AVC, já viram?". Funciona sempre. Porque por mais que a xenofobia seja hipnotizante, não há coisa que as pessoas mais gostem de falar que doenças, ainda por cima as cardiovasculares. Há sempre alguém que já teve ou já lhe passou uma de raspão. Se formos bem sucedidos, há um jogo em família no final do jantar e que ainda nos faz conseguir fazer equipa com aquele familiar que passa imenso tempo a escrever em caixas de comentários do Facebook. Mas, antes disso, as mulheres levantam a mesa e colocam à apreciação de todos as suas iguarias de açúcar e canela. Estiveram tanto tempo a fazê-las, que elas próprias não conseguem comer muito. Elogia-se o sabor de sempre mas, demasiadas vezes, a garrafa de vinho que o tio trouxe e que regou a ceia é o que açambarca as atenções dos demais. Contam-se os minutos para a meia-noite e os convidados vão começando a tirar as teias de aranha às frases: "Ó tia, não era preciso", "isto devia ser só para as crianças", "é só uma lembrança". Um par de horas depois, quando o grupo das mulheres termina de arrumar a cozinha, vão-se despedindo e regressam a casa ainda a digerir a comida e as perguntas e comentários incómodos que ouviram, seja de quem perguntou quando é que casam, que estão mais gordas ou quando têm filhos. Se olhassem a sério para o relógio, percebiam que tudo isto demorou mais tempo a preparar do que a acontecer.
Aparece tudo feito à nossa frente, como um truque, mas que está por detrás é tão trabalhoso e complexo. Parece que tudo acontece por um simples estalar de dedos, dedos que, se quisermos observar realmente, são dedos cortados, com bolhas, cansados. Mesmo na nossa diferença, emocionamo-nos juntos na experiência porque há qualquer coisa inexplicável nesta reunião. E é o poder da ilusão que nos faz querer repetir tudo no ano seguinte. Esta é a magia do Natal.

