Um estudo divulgado recentemente revelou que só 24% das pessoas visíveis nos noticiários portugueses são do sexo feminino. O relatório nacional do Global Media Monitoring Project mostra que que a igualdade de género nos média nacionais continua a ser um objetivo distante. Tem até havido "sinais de regressão" - em 2020, a percentagem rondava os 34%. E há outros dados inquietantes: as mulheres são, no mínimo, três vezes menos ouvidas enquanto fontes de informação e raramente são procuradas na qualidade de especialistas; a presença feminina só é superior em temas considerados periféricos (celebridades, artes, média) ou "explicitamente marcados pelo género". O que diz muito sobre a forma como a autoridade pública continua associada à figura masculina, à qual mais facilmente se atribuem conhecimento técnico e legitimidade. E não, não se trata de mera sub-representação estatística. Este eclipse repetido contribui para reforçar uma perceção coletiva (errada) de que há menos mulheres competentes. É, por isso, inegável que estes dados nos devem obrigar a nós, jornalistas, e aos responsáveis editoriais dos órgãos de comunicação social, a uma reflexão aturada. Mas a questão é mais profunda. Desde logo, porque falamos de um país em que o diferencial entre homens e mulheres na remuneração-base mensal ronda os 14,5% (apesar de as mulheres representarem 60% de todos os licenciados em Portugal). Para lá do emprego, há outros indícios alarmantes. Recentemente, a propósito de um trabalho sobre o aumento do discurso de ódio nas escolas, a presidente da associação Inspiring Girls relatava "sinais evidentes de uma crescente misoginia" entre os mais jovens. Dizia ela que se tornou frequente ouvir rapazes acusarem a associação de "meter coisas na cabeça das colegas", argumentando que as raparigas "já alcançaram imensa coisa e deviam estar contentes". Quando o tema é o "gap" salarial, a reação é ainda mais reveladora: claro que as colegas têm de ganhar menos, como não se elas têm de tomar conta dos filhos e não podem trabalhar tanto? Parece paródia, mas não é. É também por isso que os "sinais de regressão" apontados pelo Global Media Monitoring Project devem ser lidos como algo mais do que uma estatística setorial. São, na verdade, um sinal dos tempos, que obriga a não baixar a guarda. A história mostra que são precisas décadas para conquistar direitos e um estalar de dedos para os perder. Esquecer esta lição é um erro capital.
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