Esta semana comemorou-se o 70.o aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Do final da guerra até ao texto consensual, decorreram três anos, mas a sua aprovação é decerto o mais importante feito da humanidade no século XX.
Seria possível hoje alcançar essa declaração? Só a memória recente dos sofrimentos e atrocidades permitiu esse compromisso dos estados que, mesmo sendo violado a cada minuto, representa uma linha de conduta possível de ser escrutinada. Esta a visão mais otimista, pois a mais pessimista recorda os muitos descasos dos direitos humanos que invadem a informação que nos chega. O assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, no consulado da Arábia Saudita em Istambul, é um dos mais arrepiantes exemplos da hipocrisia dos estados, e não apenas porque o príncipe Mohammed bin Salman, apontado como responsável, posou na fotografia de família da Cimeira do G20 que há poucos dias decorreu em Buenos Aires, mas porque todos os outros lá estiveram ao seu lado. Donald Trump acabou por ser o mais transparente ao declarar que os EUA não podiam pôr em causa os negócios milionários com os sauditas. Assim vai o Mundo, fazendo crescer desesperos e frustrações que se transformam em ódios e violência, bem aproveitados como um rastilho para incendiar o que resta de solidariedade e paz.
Também esta semana, o medo regressou às ruas de Estrasburgo pela mão assassina de Chériff Chekatt, nascido na cidade há 29 anos, condenado 27 vezes por crimes comuns, mas tanto quanto parece tendo agido sozinho. O ataque que obrigou ao encerramento das principais artérias e do famoso mercado de Natal, visitado por milhões de turistas, é a expressão de como um só homem pode mudar as nossas vidas e instilar o poderoso veneno do terror. Ao quadro negro, poderíamos juntar os milhares de migrantes que pressionam a fronteira entre o México e os EUA, muitos deles jovens em busca de um eldorado americano que talvez nunca se revele.
Em termos globais, temos a geração de jovens mais bem qualificada, mas também aquela que menos acede ao mercado de trabalho. É uma contradição perversa que faz crescer a revolta e as soluções antissistema. Não basta ouvir os jovens. É essencial trazê-los para o centro das decisões: na educação, na saúde, na justiça, na economia, na habitação, no ambiente. É por isso que importa saber qual a perspetiva dos jovens sobre os direitos humanos. Não chega a história.
Professora universitária
