Há cheiros e sabores que nos são essenciais. Trazemo-los da infância, as mais das vezes, e são tão definidores da nossa identidade como o código genético. Trago aqui três sabores, um deles coincidindo com um cheiro primordial. Começo por esse.
O pão. Em Vale Formoso, aldeia da minha família materna, no concelho da Covilhã, havia uma padaria na família, pelo menos desde o meu bisavô. Passou para um tio-avô, que a expandiu e acabou por vendê-la, ao aposentar-se. Ora, a casa onde ficávamos, todos os meses de setembro, era mesmo ao lado, e eu, ganapo, adorava ir por lá. O cheiro ficou-me como razão de assombro. E os sabores... nunca esquecerei o pão espanhol, especialidade da região. Para torradas, não há melhor.
O porco. A Chão de Couce, aldeia da família paterna, no concelho de Ansião, ia menos. Mas lembro-me de lá estar com o meu pai na altura da matança e de, pela manhã, além de cair no alguidar em que preparavam as morcelas (não foi traumático, como-as que é um mimo), ver os animais abertos e pendurados. Na cozinha, as brasas acesas, uma febra rasgada ao animal, sal grosso, fogo com ela. Poucas iguarias me souberam tão bem na vida.
Mas eu nasci e vivo no Porto, cidade da terceira memória. A CUFP - Companhia União Fabril Portuense - tinha uma bela cervejaria, à Rua de Júlio Dinis. Em miúdo, sosseguem, não bebia cerveja, mas, quando lá íamos, tanto eu como o meu irmão já pedíamos antes de entrar: “Quero um mais um!”. O “um mais um”, assim escrito na ementa, era o hambúrguer da casa, quando em Portugal não havia coca-cola nem fast food. Delicioso - mandava-se sempre vir mais um mal se trincava o primeiro -, com um subtil tempero que nunca consegui replicar. Nem precisava. Quando a CUFP fechou, os trabalhadores passaram para a novíssima Cervejaria Galiza e nunca tiraram da lista o mais um. E tantas vezes lá fui, adulto, em busca do sabor essencial!... Entretanto, a Galiza faliu, o assunto foi noticiado, fechou e acabou por reabrir com outro nome. Fui lá espreitar um dia destes e não passei da porta. Os hambúrgueres, agora, são como em qualquer outro sítio, com bacon, alface, tomate... A minha meninice foi riscada do menu.
É uma metáfora do novo Portugal à medida dos turistas. Trocar o mais um, único, pelo mais do mesmo.

