Um político que escolhe estar presente em modo discreto
São impressionantes os relatos e as imagens das regiões mais afetadas pela tempestade Kristin. Nesta tragédia, os relatos jornalísticos são essenciais para perceber o que está a acontecer. Já o aparato político é completamente dispensado. Se a presença dos governantes nos sítios devastados é obrigatória, os candidatos em campanha são completamente dispensáveis aí.
Num direto a partir de Almada, António José Seguro explicou ontem de manhã que "quis ir sozinho ver com os próprios olhos" o que se passava em Leiria e na Marinha Grande. Também telefonou ao autarca de Castelo Branco. Fê-lo sem comitiva, sem jornalistas, sem transformar a tragédia num palco. E fez muito bem. Porque este não é o tempo para o espetáculo mediático, mas para mobilizar todos os meios para acudir a quem mais precisa. Quando a calamidade está a ser enfrentada, cada gesto deve ter como único objetivo ajudar.
Em situações como esta, os políticos que se deslocam ao terreno das calamidades e publicitam essas visitas envolvem meios de segurança e logística que fariam mais falta no socorro; obrigam os responsáveis pelas operações a interromper o trabalho para acompanharem essa comitiva oficial; expõem cidadãos fragilizados a câmaras que entram, sem pedir licença, nas casas ou nas vidas que muitos preferiam manter fora do espaço público. Por isso, essas deslocações devem ser planeadas unicamente em função das ações que se pretendem mobilizar.
É preciso estar nos locais de devastações com o único objetivo de se inteirar da situação para agir melhor. Ir ao terreno sem aparato, sem transformar a dor alheia num momento mediático, é um sinal de respeito e de pudor, qualidades que deveriam ser intrínsecas a qualquer político que ambiciona tomar conta da vida pública.
Num tempo em que tudo parece exigir visibilidade imediata, comunicação em direto, a contenção, por mais paradoxal que possa parecer, deveria surgir como um gesto forte. Ao abdicar do protagonismo num momento de dor coletiva, António José Seguro enfatiza que há momentos em que a melhor forma de estar presente é não ocupar o centro do terreno. Perante tragédias, o melhor que um político tem para fazer é agir depressa para diminuir o impacto do que aconteceu. Regiões devastadas por esta tempestade constituem cenários de perda real. Percebemos bem que há ali pessoas assustadas a procurar perceber como enfrentar e neutralizar a destruição. Não são figurantes de narrativas eleitorais, são cidadãos cuja dor deve ser resguardada e minimizada.
A opção de Seguro sugere uma separação clara entre a solidariedade institucional e o oportunismo emocional. Oxalá faça caminho.

